O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mudou. Termina hoje o prazo de inscrições para a prova, que neste ano será dividida em dois dias e cada etapa terá 90 questões interpretativas e interdisciplinares. Além disso, o desempenho no exame será mais importante neste ano. Universidades federais utilizarão as notas da prova como parte representativa do processo seletivo. Para alguns professores, as mudanças foram positivas. Outros avaliam que as alterações foram muito repentinas e podem prejudicar os vestibulandos. Além disso, pode aumentar a migração de alunos das regiões Sul e Sudeste, com melhor desempenho, para universidades federais de outros Estados, onde as notas médias no Enem costumam ser menores.
O Enem será aplicado em 1,8 mil municípios no País, nos dias 3 e 4 de outubro. Mais de 3 milhões de estudantes se inscreveram no exame. A prova terá uma redação e 180 testes, de quatro grandes áreas: línguas, matemática, ciências da natureza e ciências humanas. Além de passaporte para ingresso em dezenas de universidades federais, a partir deste ano o Enem também vai valer para certificação de conclusão do ensino médio. As universidades estaduais em São Paulo utilizarão a pontuação obtida no Enem como parte da nota final.
Para o professor Paulo Viegas, coordenador do ensino médio e pré-vestibular de um colégio do Higienópolis, as alterações do exame prejudicaram os alunos. “Mudaram as regras no meio do jogo. Os alunos ficaram inseguros. O correto seria anunciar as mudanças agora e aplicar daqui três anos, para a próxima turma de ensino médio”, diz.
Para o coordenador, o modelo deveria ter sido mais discutido. “O governo errou. Ações de mudança na educação deveriam ser mais estudadas. Mas acredito que esse modelo será bom para escancarar o déficit da educação no País”, avalia.
Já José Carlos Marques, coordenador de ensino médio e cursinho preparatório ao vestibular de um colégio no Centro, avalia que os vestibulandos ficaram mais ansiosos por conta da mudança. “Mudou a abordagem do exame, as questões estão interligadas. Mas o aluno que está preparado encara qualquer tipo de prova”, pondera.
Para ele, “decoreba” de fórmulas e datas já não resolve mais no Enem. “O aluno vai precisar ler muito. Saber as datas de cor não é mais importantes. O que conta é o aluno saber o que o fato representou no contexto histórico, por exemplo”, diz.
Vera Casério, diretora de um outro colégio do Higienópolis e coordenadora do curso de pedagogia de uma universidade de Bauru, conta que, inicialmente, alunos e professores ficaram apreensivos com o novo Enem. “Mas o colégio lidou muito bem com essa nova proposta e já vinha fazendo um trabalho nessa linha de leitura, interpretação e análise de questões”, afirma a coordenadora.
Para Casério, as mudanças no sistema do Enem são positivas. “A interpretação de textos não é mais prerrogativa do professores de língua portuguesa. Todos devem trabalhar para isso e os colégios devem intensificar o investimento nesse sentido”, pontua.
Cansativa
Karen Luisa Parra de Barros, 17 anos, é vestibulanda e aluna do 3.º ano do ensino médio. Em 2008, ela prestou o Enem para conhecer a prova. Porém, o novo exame será completamente diferente. “No ano passado, o nível das questões foi relativamente fácil. Este ano, acho que a prova será mais cansativa. O número de questões assusta”, diz.
Ela vai tentar uma vaga em biotecnologia na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). As universidades estaduais deverão utilizar a pontuação obtida no exame para elaboração da nota final. A UFSCar utilizará o Enem como parte da nota do processo seletivo (50%) e para vagas remanescentes, mas somente a partir do ano que vem.
Ela conta que não mudou a rotina de estudos para enfrentar a prova do Enem. “Além das aulas, estudo umas cinco horas por dia”, afirma. “Eu tenho estudado bastante e fiz um simulado para entrar em contato com o tipo de prova. Esse ano o Enem será muito importante, pois as federais estão considerando até como sistema único para entrar em alguns cursos. E, se o candidato não for bem, fica mais difícil conseguir uma vaga”, diz.
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Outras regiões podem ‘roubar’ vagas
O novo modelo do Enem pode provocar migração de estudantes das regiões Sul e Sudeste para outros Estados. Historicamente, estudantes dessas regiões mantêm desempenho melhor que os o Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Portanto, podem tentar vagas em universidades federais desses Estados em condições melhores.
O professor Paulo Viegas, coordenador do ensino médio de um colégio do Higienópolis, avalia que o fenômeno é parecido com a procura de cursos na mesma universidade, mas em cidades diferentes. Por exemplo: se um curso de biologia oferecido em Bauru teve relação candidato/vaga menor do que o da mesma universidade, mas em Araras, há uma corrida para o primeiro. Essa procura irá aumentar a quantidade de candidatos por vaga, tornando o primeiro curso mais concorrido do que o segundo.
José Carlos Marques, coordenador de ensino médio e cursinho de um colégio no Centro, avalia que essa diferença é histórica. “Se um aluno de São Paulo disputar uma vaga em Estados de outras regiões levará uma grande vantagem. É um aspecto que deve ser analisado melhor pelo governo, mas não é muito diferente do que já acontece hoje”, pondera.
Marques avalia que mais grave que a diferença entre regiões é a discrepância entre o ensino público e privado. “As escolas particulares fazem um trabalho bem intenso com alunos. Aqui, nós oferecemos aulas em horários alternativos sobre assuntos específicos. Na rede pública não existe essa possibilidade. A desigualdade é notória”, pondera.
Vera Casério, diretora de um outro colégio do Higienópolis e coordenadora do curso de pedagogia de uma universidade de Bauru, avalia que os vestibulandos já buscam universidades foram do eixo Sul/Sudeste. “Muitos prestam vestibular para outros Estados e creio que isso deve se intensificar.”
Para a coordenadora, a diferença entre o desempenho dos alunos desses Estados deve servir de estímulo. “Fica uma disputa quase desigual. Mas é uma maneira de forçar Estados e municípios a melhorar a qualidade da educação”, avalia. “A qualidade de ensino deve ser sempre prioridade. É preciso intensificar investimentos na formação do corpo docente”, destaca.