Um cineminha aqui, um passeio ali, uma lanche acolá e assim o orçamento das famílias de classe média vai às alturas durante as férias escolares dos filhos. Enquanto os pais costumam gastar entre R$ 600,00 e R$ 1 mil por filho por mês entre escola e cursos extracurriculares, em julho, além de continuar arcando com as despesas fixas, cada saída de casa para um programa simples, como um cinema, não fica em menos de R$ 50,00.
“Os gastos aumentam. Eles (filhos) ficam com mais tempo ociosos e querem preencher com atividades. Mas dificilmente estas atividades não requerem gastos. Pela própria situação de estar de férias, eles querem sair da mesmice. Os meios de comunicação também incentivam os gastos anunciando promoções de férias”, relata Mônica Litrento, mãe de João Pedro, 8 anos, e de Ana Laura, 16.
Para Márcia Cibele Tristante Odria, mãe de Aline, 15 anos, e Guilherme, 10 anos, o que pesa mais são os passeios. “São mais passeios, cinema e nisso a gente gasta um pouco mais. A gente leva no mercado e aí acabam pedindo para comprar uma coisa ou outra”, conta. Luismar do Nascimento Pinto, pai de Luís Felipe, 14 anos, e João Pedro, 6 anos, lembra do custo das viagens. “Normalmente, a gente acaba se deslocando para uma cidade ou outra e aí tem o dinheiro da gasolina, dos pedágios”, pontua.
Realmente, a lista de atividades e dos gastos correspondentes é longa e dispendiosa, mas para o economista Reinaldo Cafeo, tudo é uma questão de se programar.
“Na verdade, existe uma substituição de gastos. O que acontece nas férias é que os gastos são menos previsíveis do que quando a criança está na escola. Na escola você tem horário, as crianças que estudam em escolas particulares tem gasto com cantina e locomoção. As atividades são mais previsíveis. Nas férias, se a pessoa não se planejar, ela perde um pouco o controle sobre isso”, explica.
No início do segundo semestre boa parte das famílias está acabando de pagar os impostos da casa e do carro e deve tomar cuidado para não contrair novas dívidas durante as férias de julho. Para o economista, o uso abusivo do cartão de crédito pode ser uma armadilha.
“O cuidado que os pais têm que ter nas férias é com o cartão de crédito, pois ele dá um poder de compra muito grande graças aos limites. As pessoas não sentem o dinheiro sair do bolso na hora que passam o cartão e isso potencializa os gastos. Na hora que chega a fatura, elas têm aquela surpresa e acabam pagando o valor mínimo. Os juros dos cartões chegam a 460% ao ano. A pessoa tem que se planejar, pois em qualquer descuido ela pode ter um problema como se endividar ou ter que segurar gastos em outro setor da casa ou num bem essencial”, alerta.
Os pais que querem manter o orçamento em dia devem optar por uma conversa franca com os filhos. Cafeo acredita que esta é a melhor forma de conseguir a colaboração das crianças e adolescentes.
“Com crianças entre 6 e 7 anos de idade os pais devem usar comparações explicando, por exemplo, o quanto equivale em dias de trabalho aquele objeto que a criança quer. Elas passam a entender por meio da comparação o quanto siginifica aquele gasto. Já com os adolescentes é dialogo mesmo. Os pais não podem esconder e nem passar a sensação de que eles são poderosos. A família tem que abrir o jogo porque, quando você abre o jogo, conquista. E na conquista, você encontra solidariedade para poder controlar os gastos familiares”, orienta.
Mônica conta que a barganha também funciona. “Vamos fazer uma viagem para o Guarujá mais para frente. Então eu faço algumas trocas com meus filhos. Se eles pedem alguma coisa, eu pergunto se não tem como esperar porque aí a gente pode guardar um dinheirinho a mais para gastar na viagem. Eles entendem e aceitam bem”, afirma.
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Descansar também é programa
Embora as crianças e adolescentes de hoje exijam atividades diárias durante as férias, nem sempre foi assim. Há alguns anos, o recesso escolar era tempo de descanso, de não fazer nada, de ficar de pernas para o ar.
“Hoje mudou muito, mas logicamente no meu tempo as férias eram para descanso do aluno e do professor. Serviam para recuperar as energias físicas e mentais para o segundo semestre”, conta o professor aposentado, Rodolpho Pereira Lima, 78 anos.
Para a psicóloga clínina Ana Beatriz Montassier Pinheiro, é importante incorporar um período de descanso em casa nas férias. “O descanso também faz parte das férias, claro! Pode ser combinado com as crianças, dentro da semana de atividades e passeios, o número de dias para o descanso em casa, que pode ter ou não alguma atividade relaxante”, pondera.
Rodolpho aponta ainda que na sua época os jovens não tinham tanta liberdade para sair de casa e que os pais mantinham um contato mais próximos com os filhos que, por sua vez, os repeitavam mais.
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Psicóloga recomenda convivência familiar
A saída para proporcionar férias divertidas aos filhos sem entrar no vermelho é usar a criatividade. Muitas vezes, programas gratuitos ou na própria residência podem ser extremamente interessantes e bem mais baratos.
“É importante que os pais participem desse momento (férias). Lógico que dentro do possível de cada família, de várias formas, não somente em atividades que exijam gastos, mas colocando a criatividade dos pais para funcionar, até mesmo das próprias crianças deixando que criem as próprias brincadeiras e atividades”, sugere a psicóloga clínica Ana Beatriz Montassier Pinheiro.
Algumas opções são fazer piquenique nas áreas verdes da cidade, como o Horto Florestal, o Jardim Botânico e o Bosque da Comunidade, visitar o zoológico receber amigos e parentes em casa ou ir visitá-los.
Os filhos de Márcia Cibele utilizam estas alternativas e não acham nada ruim. “Minha filha passou uma semana na casa da vó que mora aqui em Bauru mesmo. Eles vão bastante na vó. É uma forma de sair de casa, não é?”, comenta a mãe.
Outra orientação da psicóloga é fazer uma programação prévia com as crianças. “Uma dica é combinar antecipadamente com a criança o que fazer durante a semana. E marcar um dia para o cinema e o lanche, outro para as atividades em casa, outro para o descanso, outro para o piquenique, para andar de bicicleta, entre outros”, afirma.
Quando for o dia do passeio, o ideal é estabelecer limite de gastos. “No dia a dia, o pai e a mãe devem impor uma certa trava, ou seja, devem determinar o quanto o filho pode gastar naquele passeio. Fazer com que os filhos saiam de casa com este limite teto estabelecido”, ressalta o economista Reinaldo Cafeo.
Apesar da maioria dos pais não conseguir férias no trabalho no mesmo período das crianças, eles devem aproveitar o tempo em que estão juntos para estreitar os laços. “As férias também proporcionam o estreitamento do afeto, da cumplicidade e da amizade. É um momento em que os pais podem aproveitar mais os filhos e a si mesmos, deixando que suas imaginações aflorem, voltando a ser crianças, brincando e criando com os filhos”, finaliza Ana Beatriz.