Geral

A hora da virada: supere seus desafios

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Apesar de os desafios exercerem forte atração sobre os indivíduos de nossa espécie, temos também o costume de nos acomodar quando alcançamos na vida um patamar que poderia ser definido como sucesso. Passamos a encarar a estabilidade, o conforto, a segurança, a saúde, a mesa farta e o dinheiro como elementos constituintes de nosso “eu”.

O problema dessa construção é que ela tem alicerces frágeis demais. Às vezes, basta que caia um de seus alicerces para que o resto do edifício desmorone. Pode ocorrer de a “casa” permanecer em pé, ainda que balançando pelo resto de nosso dias, sem que sejamos capazes de virar a mesa. Nessas situações, o que nos resta? Chorar, qualquer um chorava - já dizia o compositor Paulo Vanzolini, para mais adiante provocar: “Dar a volta por cima, quero ver quem dava...”

“Em geral, dois tipos de mudança podem ser observados na vida das pessoas: as de primeira ordem, que é quando, em vez de resolver o problema, você mexe em algum aspecto acessório de sua existência. Por exemplo: você está chateado no serviço e resolve entrar para a academia a fim de se esquecer dos contratempos; ou um casal está brigando demais e decide fazer uma viagem para acalmar os ânimos”, explica Ulisses Herrera Chaves, coordenador do curso de psicologia da Universidade Paulista (Unip) de Bauru.

“As mudanças de segunda ordem são mais difíceis de ocorrer e se dão em nível lógico. É aquilo que costumamos chamar de virada de mesa: eu, que costumava fazer determinadas coisas, decido parar de agir assim para sempre. É o caso de um alcoólatra que resolve parar de beber ou de um casal que decide se separar”, acrescenta o estudioso.

As formas como as pessoas lidam com as frustrações variam bastante, de acordo com o histórico de vida e a rede social que cerca cada uma. Alguns indivíduos são capazes de levar uma existência semelhante à do personagem Charlie Brown, do norte-americano Charles Schulz - por mais rasteiras que levem da vida, seguem acreditando que algum dia poderão dar a volta por cima. Outras pessoas são bem menos resistentes, a ponto de sucumbirem por razões fúteis. Recentemente, por exemplo, a imprensa internacional noticiou que pelo menos 12 fãs de Michael Jackson cometeram suicídio ao saberem que o cantor havia morrido. Na Austrália, a situação mostrou-se tão grave que as autoridades tiveram de reforçar suas linhas de apoio e valorização à vida.

Tudo bem que se tratam de exemplos extremos: de um lado, alguém que apanha, apanha, apanha e continua tentando; de outro, um castelo que desmorona por conta de uma leve brisa. O fato é que, quer queiramos, quer não, a frustração sempre fará parte de nossas vidas.

“A vida tem limites. Nem sempre teremos a nosso alcance tudo aquilo que desejamos”, pondera o psicólogo. Até certo ponto, “quebrar a cara” pode ser uma forma de crescermos, tanto no pessoal quanto no profissional e no financeiro.

“Quando as coisas dão errado em nossas finanças, podemos usar essa experiência como forma de superação. É uma chance de readequarmos nossos gastos e adotarmos um modo de vida mais simples”, avalia Reinaldo Cafeo, coordenador do curso de economia da Instituição Toledo de Ensino (ITE).

Como o próprio economista lembra, existe, atualmente, uma forte correlação ente os aspectos pessoal e econômico da vida dos indivíduos - ou seja, se um vai mal, acaba prejudicando o outro. “O consumo se tornou uma espécie de refúgio para os problemas do dia-a-dia, sem contar que muita gente adquiriu o hábito de comprar pelo simples prazer de gastar”, critica Cafeo.

“Vivemos a cultura do fast food”, reforça Herrera Chaves. Impulsionados por essa cultura do prazer imediato e do consumismo desenfreado, muitos brasileiros caminham a passos largos rumo ao precipício. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) apontam que 65% das famílias brasileiras ficam sem nenhum tostão já no 20.º dia de cada mês. “Por mais que o sujeito se esforce, bastará um contratempo qualquer para que ele se veja em um beco sem saída.”

____________________

Zeli: prazer está nas pequenas coisas

Zeli Garcia tem 59 anos e mora na Vila Cardia, em Bauru. Nos anos 90, foi proprietária de uma cantina, onde chegou a empregar oito funcionários. “Eu pagava faculdade de psicologia para minha filha, além de prestações de um carro seminovo e de um apartamento. Também costumava viajar todos os anos. Quando saía à noite com as amigas, era eu quem pagava as contas”, afirma ela.

Enquanto os negócios correram bem, Zeli não tinha problemas para manter esse padrão de vida elevado. Por volta de 1997, as coisas começaram a dar errado na cantina. Para saldar as contas que se acumulavam sem parar, ela se viu obrigada a se desfazer de tudo aquilo que tinha.

No final, a filha teve de largar a faculdade, e Zeli foi trabalhar como cozinheira em um restaurante. Mas os problemas não pararam por aí: ela descobriu que tinha câncer de pele. Para piorar, a doença já havia avançado para gânglios linfáticos.

“Com o passar do tempo, tive cinco reincidências desse câncer, uma delas nos ossos. Cheguei a ficar 35 dias numa cama de hospital. Sou muito de analisar os porquês das coisas, e tinha certeza de que havia um motivo para eu estar naquela situação. Foi aí que descobri na prática algo que eu já sabia na teoria: o verdadeiro prazer está nas pequenas coisas. Havia muita coisa que eu ainda desejava fazer, portanto, não poderia desistir de viver. Queria aprender a dançar, a nadar e a dirigir, por exemplo”, conta Zeli.

O projeto baseado nas “pequenas coisas” não foi o único fator que pesou na recuperação de Zeli. Cozinheira de mão cheia, ela participou da elaboração de algumas revistas de culinária, por volta de 2004, quando ainda lutava contra o câncer.

“Certo dia, uma mulher de Jacareí me ligou, querendo saber mais detalhes a respeito de algumas receitas. Expliquei tudo o que ela precisava. Tempos depois, ela voltou a me telefonar. Estava emocionada, chorava demais. Disse que ela e o marido estavam desempregados. Agora, com minhas receitas, eles haviam descoberto uma nova fonte de renda”, conta Zeli.

Atualmente, ela está longe de ostentar o padrão de vida dos tempos em que era empresária. Mesmo assim, afirma ser mais feliz do que antigamente. “Passei a ver o mundo de maneira diferente. Hoje, essa história de correr atrás do dinheiro já não faz mais sentido para mim”, garante.

Comentários

Comentários