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Entrevista da semana: Nélson da Silva Bastos

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

‘Trabalho voluntário aproxima de Deus’

Doar. Esse é o verbo preferido de Nelson da Silva Bastos. Doar alimentos, doar conforto espiritual, doar alegria, doar esperança a quem não a vê mais ou a procura. Presidente do Centro Espírita ‘Amor e Caridade’, ele diz que o trabalho voluntário o aproxima de Deus e dá sentido à vida.

Aos 20 anos de idade, o bauruense não teve medo do desconhecido e se ‘aventurou’ em busca do primeiro e único emprego da sua vida. Passou em um concurso público do Banco do Brasil e foi trabalhar no Estado do Piauí. Entre as dificuldades encontradas no sertão, como o calor intenso, falta de recursos hídricos, elétricos e de hábitos alimentares diferentes para o paladar do menino do Interior paulista, o bancário, hoje aposentado, conheceu o amor, se casou e teve seu primeiro filho.

Cinco anos depois de chegar ao Piauí, ‘seo’ Nelson conseguiu transferência para Bauru. De volta à terra natal, ele descobriu a caridade e o voluntariado através da religião, atividades que ocupam a maior parte do seu tempo atualmente.

Saiba mais sobre a vida de Nelson Bastos lendo os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - Qual foi a sua trajetória profissional?

Nelson Bastos - Sou um brasileiro privilegiado porque só tive um emprego a minha vida toda. Entrei no Banco do Brasil em 1962 em Floriano, no Piauí, e fiquei lá até 1966, quando consegui transferência para Bauru. Trabalhei até dezembro de 1991 e me aposentei.

JC - Como foi a experiência de viver em um Estado tão distante de São Paulo?

Nelson - Quando cheguei ao Piauí, achei tudo diferente. Totalmente estranho daqui. Tinha 20 anos de idade, vontade de trabalhar e pouco conhecimento sobre a região nordestina. Fui de avião até Goiânia e, de lá, peguei um outro vôo para Floriano. Foi até engraçado. Quando chegamos em Goiânia, eu e um amigo aqui de Bauru que também estava tomando posse do cargo lá, achamos a cidade linda e esperávamos encontrar a mesma beleza em Floriano. Descemos do avião de paletó e gravata em um calor de mais de 40 graus e encontramos uma cidade simples e humilde. Estávamos no sertão do Piauí sem água encanada e luz elétrica. Mas foi uma grande viagem porque lá me casei e tive meu primeiro filho.

JC - Quais foram as maiores dificuldades que o senhor sentiu nos anos em que viveu no Piauí?

Nelson - Naquela época, os meios de comunicação eram escassos e quase não havia formas de comunicação com minha família. A saudade foi a maior dificuldade durante aqueles cinco anos. Outra dificuldade encontrada foi devido à alimentação. Frutas e verduras eram alimentos raros na época em Floriano e a alimentação era à base de carne de bode e cabrito, e tudo cheirando a coentro, tempero que eu não gosto.

JC - Como o senhor fazia para falar com seus pais?

Nelson - Falávamos por correspondência. Porém, as cartas e outras encomendas não chegavam tão rápido como hoje. Para você ter idéia, minha mãe me enviou um radinho pequeno para ouvir futebol e demorou mais de 15 dias para ele chegar até as minhas mãos. Mas, eu achei uma forma alternativa de falar com minha família: através do radioamador. Eu tinha um amigo que era radioamador, Francisco dal médico e conheci, em Floriano, um homem que também era e que, mais tarde, viria a ser o meu sogro. Marcávamos horário e nos ‘encontrávamos’ via radioamador.

JC - Quais são as melhores lembranças daqueles cinco anos em Floriano?

Nelson - Encontrei um belo e hospitaleiro povo lá. Tenho amizades que duraram até hoje. Tenho familiares lá e, quando vou em visita, sempre encontro com meus antigos amigos e ainda me sinto em casa.

JC - O senhor viveu sozinho lá?

Nelson - Não. A agência do Banco do Brasil era grande. Montei uma república com os jovens que também foram para lá. Moramos em dez moços e cada um tinha sua função dentro da república para que tudo funcionasse da melhor maneira possível.

JC - Casou-se e teve um filho no Piauí. Como foi essa história de amor?

Nelson - Isso já tem 47 anos. Quando meu avião aterrissou no aeroporto, havia uma moça que acompanhava a mãe em um embarque. Quando a vi eu pensei: poxa vida, tem gente bonita por aqui. Ela usava um cabelo comprido e eu passei a procurar a moça, entre tantas outras, quando ia passear na praça. Como eu a tinha visto apenas uma vez, não me lembrava exatamente do rosto dela, apenas dos cabelos, que ela tinha cortado. Certa vez, um amigo em comum me apresentou uma amiga e eu vi que era a menina que eu procurava já há algum tempo. Então, começamos a namorar e nos casamos em 1965. Vivemos juntos e felizes até hoje.

JC - Como teve início sua trajetória religiosa?

Nelson - Fui criado em uma família espírita e sempre fui um espírita ‘marca barbante’, aquele que se diz, mas pratica pouco. No Piauí, a religião não tinha espaço, então fiquei afastado naqueles anos e, quando voltei a Bauru, comecei a freqüentar algumas instituições religiosas até me vincular ao Centro Espírita ‘Amor e Caridade’, em 1970. Me formei em direito no Instituto Toledo de Ensino e um dos grandes amigos que fiz durante a faculdade me deixou como ‘herança’ a consciência e a vontade de trabalhar pelo próximo. Richard Simonetti e outros colegas de banco também me ajudaram a iniciar os trabalhos. Comecei com eles no Parque Jaraguá, onde eram feitas visitas e distribuição de cestas básicas. Desde então, tomei gosto pelo trabalho voluntário e não parei mais.

JC - Qual foi o próximo passo?

Nelson - Criamos uma ‘casa de sopa’, que visava juntar voluntários para fazer e distribuir alimentos para pessoas carentes, isso em 1979. Eu ajudava aos sábados e continuo, até hoje, com minha equipe, fazendo comida no final de semana. Depois, ganhamos um terreno onde construímos o que hoje é a creche ‘Nova Esperança’. Fiquei na coordenação da creche até dezembro de 2007 e passei a ser o presidente do Centro Espírita ‘Amor e Caridade’, em janeiro de 2008. Me afastei da coordenação, mas não das atividades.

JC - Quais são os outros projetos do “Amor e Caridade”?

Nelson - Temos muitos projetos. O mais antigo é o albergue noturno. A creche foi nosso segundo grande projeto e é a maior creche de Bauru. Abrigamos 160 crianças todos os dias. Temos um belo projeto na Vila São Paulo que começou com uma casa de sopa e hoje é, também, um reforço escolar onde a criança supera suas dificuldades e tem a oportunidade de fazer um curso profissionalizante para ajudá-la a ter mais oportunidades no seletivo mercado de trabalho. Também temos um projeto semelhante no Jardim Ferraz, Fortunato Rocha Lima, Vila Asilo e no Ferradura Mirim. O projeto ‘Amarelinhos’ envolve 400 voluntários, todos vestidos com jaquetas amarelas e prestadores de serviço nos hospitais da cidade. Temos o projeto ‘Gestar’, que apóia e dá orientação para as futuras mamães de famílias carentes.

JC - Como surgiu a necessidade de construir um novo prédio para o albergue?

Nelson - Estamos no prédio desde 1951 e vimos a necessidade de fazer uma remodelação na filosofia do trabalho e, para isso, precisamos de um novo prédio. Assim, a prefeitura nos cedeu metade de um terreno na quadra 7 da rua Inconfidência e a outra metade nós compramos. As obras começaram em março. A idéia é anexar dois projetos nesse prédio. Fazer um projeto de reintegração social com os moradores de rua. Esse é um desafio grande porque as pessoas, muitas vezes, não acreditam na validade da reintegração social e não aceitam ir conosco. Não podemos obrigá-los e sim conscientizá-los para que venham por livre e espontânea vontade. E o outro projeto é dar abrigo noturno para os migrantes, pessoas que passam pela cidade.

JC - Como está o andamento da obra?

Nelson - Chegamos até a concretagem da laje e, se não conseguirmos mais recursos, a obra ficará parada à espera de doações. Estamos em campanha de arrecadação. As instituições ou pessoas que se sentirem tocadas a ajudar podem entrar em contato conosco. Nós temos uma conta específica na agência do Banco do Brasil Estoril. O código é agência 1594-6 e o número da conta é 8888-5, Centro Espírita Amor e Caridade. Os recursos que caírem nesta conta serão integralmente aplicados na construção desse novo prédio. Só temos a agradecer a todos que ajudam: instituições públicas, privadas e toda a população bauruense.

JC - Como o senhor define a importância do trabalho voluntário?

Nelson - O ‘Amor e Caridade’ conta com a parceria de 950 voluntários, aproximadamente, sem os quais não seria possível colocarmos nossos projetos em prática. Quando você inicia um trabalho assim, não consegue parar porque encontra nele respostas para tudo na sua vida e descobre que seus problemas são mínimos perto das dificuldades das pessoas. Trabalhamos em parceria com nossos irmãos católicos e evangélicos em muitos desses projetos. Costumo dizer que não há ex-voluntários.

JC - O que é religião para o senhor?

Nelson - Religião para mim é servir. Eu acho que esse é o papel da religião. Nos colocarmos como servidores em todas as circunstâncias em que as criaturas necessitem de ajuda. E isso não se limita apenas às necessidades materiais, mas também à pobreza espiritual, moral e ética em qualquer camada da sociedade.

JC - Quem é Deus para o senhor?

Nelson - Eu li um texto do padre Beto (pessoa que ainda não tive a oportunidade de conhecer, mas que admiro muito) na revista ‘Atenção’ de 2008 onde ele conta uma história cuja conclusão é que Deus é ‘a segurança’. E é isso mesmo o que digo. Ele não é um segurança e sim ‘a’ segurança. Por exemplo, quando eu fiz uma cirurgia cardíaca há sete anos, eu senti o que é a segurança de Deus. Eu fui para a sala cirúrgica como se estivesse indo para uma pedicure cuidar das minhas unhas. Calmo, sem medo e confiante.

JC - O que gosta de fazer para descansar e se distrair?

Nelson - Uma coisa que gosto muito de fazer é pescar. Duas vezes por ano, no mínimo, eu vou para o Pantanal Matogrossense e passo uma semana pescando, repondo minhas energias em contato com a natureza. A pesca para mim é um hobby que teve início em 1979, mais ou menos. Temos um grupo de amigos que viaja junto. Aos finas de semana, eu pego meus netos e os levo para os pesqueiros, já com o intuito de iniciá-los nessa prática.

JC - Quais são seus planos e projetos futuros?

Nelson - Todo ser humano precisa deles. Pretendo ficar na presidência do Centro até 31 de dezembro de 2010. Depois disso, quero continuar ajudando e pretendo desenvolver um trabalho voltado às crianças que saem das creches aos 6 anos de idade. Ainda não sei o que vai ser, mas quero algo que tire os pequenos da rua e lhes proporcione algo sadio e proveitoso. Também pretendo continuar com a filosofia de assistência no ‘Amor e Caridade’ com os voluntários e sociedade bauruense. Gosto de dizer que Bauru é uma cidade privilegiada nesse campo. As pessoas ajudam bastante.

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