Já faz mais de uma semana que me deixaram aqui, no meio dessa avenida, pelo que ouvi, trata-se da Avenida Comendador da Silva Martha, quadra 20. Quando acordei, já estava aqui, sem ninguém no meu volante, meus bancos vazios, meu motor silencioso, eu não consigo me lembrar do que aconteceu comigo naquele dia, só me lembro que estava muito frio, e de repente, tudo ficou escuro, e depois fui deixado a beira do caminho. Durante todos esses dias tenho esperado ser resgatado por alguém de bom coração.
Tenho tomado sol e chuva, tenho passado muito frio, e o que é pior, estou extremamente só, não sei o que aconteceu com o meu dono, onde ele esta? Por que não vem me encontrar, será que ele sabe onde estou?
Meu sobrenome é BJK 0763, embora minha certidão de nascimento já esteja toda amassada, mas eu gosto mesmo é que me chamem de Fusca, minha tinta já está gasta, estou meio laranja desbotado, já estou com mais de quarenta anos, acho eu; tinha uma vida tranquila, um teto para dormir, um dono atencioso, que a cada barulho novo, preocupava-se em verificar de que se tratava, mas agora tudo isso é passado.
Toda vez que alguém chega perto de mim, tento ser simpático, porém estou sendo violentado a cada dia; já levaram minhas rodas, minha porta já não fecha, meus faróis dianteiros também foram embora, já não estou enxergando quase nada, sorte que uma das lanternas traseiras ainda está comigo; já mexeram em meu motor, levaram algumas peças, já abriram meu capo,reviraram e levaram alguns pertences meus: estepe,macaco, quebraram a duros golpes meus vidros, foi uma dor insuportável!
Os humanos que vieram até mim, vasculham-me em pleno dia, e ninguém faz nada, parece ser normal para eles (humanos), invadir assim a intimidade dos outros, roubando-me e violando os direitos de outros.
Estou inerte, não consigo chamar atenção de nenhuma autoridade policial, será que não entendem que meu dono deve estar aflito com meu desaparecimento, já gritei tanto por socorro, mas parece que ninguém ouve.
Por favor, alguém faça alguma coisa, minha carcaça está afundando na lama que me cerca e com toda essa chuva, daqui a pouco ninguém mais vai me enxergar mesmo!
Quando tinha meu cantinho, meu dono por perto, tinha a ilusão que o resto do mundo também era assim; seguro, sereno, generoso, gentil, mas infelizmente acho que me enganei!
Élida TM Yonamine - jornalista