Mudanças no eixo urbano da cidade ao longo dos anos incentivaram a pesquisadora Lúcia Helena Ferraz Sant’ Agostino a verificar a divisão da cidade enquanto comunidade. A tese de doutorado “Rumo ao Concreto”, produzida e defendida por ela pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), descobriu realidades diferentes em cada bairro.
Após a seleção dos participantes, distribuição das máquinas fotográficas e de cada pessoa fotografar o seu bairro de acordo com o proposto, a professora se reuniu com cada um deles para, juntos, interpretar o que haviam registrado. “Foi um trabalho demorado, mas apenas receber as fotos sem saber de quem fotografou o que ele quis mostrar com a imagem poderia me levar a uma interpretação contrária do pretendido pela pessoa”, explica.
A professora observa que ao interpretar as fotos feitas pelos moradores conseguiu perceber as divisões de sentido nas comunidades. “No Jardim Redentor, por exemplo, poucos sabem, mas existe uma divisão de classes entre os moradores. Na época da construção o bairro foi entregue em etapas e essa divisão era visível entre quem residia no Redentor I, II ou III. Em um lugar estavam os mais pobres e nos outros, pessoas com condições financeiras diferentes”, conta a professora.
Lúcia Helena afirma que essa divisão na própria comunidade só não foi encontrada no Jardim Bela Vista, onde esse processo era inverso. De acordo com ela, antes de haver um movimento de exclusão, havia um de inclusão na comunidade. Nos demais bairros, claro que cada um com sua intensidade diferente, essa exclusão foi notada.
“Na verdade, o Jardim Bela Vista é um loteamento cercado de outros diversos, como Vila Quággio e Nova Bela Vista, mas na cabeça dos moradores essa divisão não existia e acredito ainda não existir. Tudo ali é uma só comunidade”, relata Agostino.
A professora cita que os moradores do Jardim Terra Branca, na época enxergavam de longe a realidade do Jardim América com seus investimentos imobiliários e queriam fazer parte dele, mas não aceitavam ser parte da Vila Independência.
“Na verdade, o Terra Branca não estava no projeto original da tese, ele surgiu com os resultados. Os moradores enxergavam o local como uma terra de passagem, ninguém fazia planos de residir no bairro por muito tempo, não sei dizer se isso mudou”, lembra.
Uma década depois do trabalho concluído, a professora também revela a curiosidade em verificar se algo mudou, mas ela própria acredita que o trabalho é único, já que a dificuldade para reunir as mesmas pessoas seria muito grande. Agostino acredita que alguns dos personagens talvez não residam em Bauru e outros possam ter morrido. “Um novo levantamento traria a atual realidade dos bairros sob a visão de outras pessoas”, explica.
De acordo com a professora, nos bairros mais antigos foi notado um “enraizamento” dos moradores. Ela relata que nesses locais os moradores colaboram para fazer do bairro o local ideal para se viver. Já nos outros bairros não existe essa identificação; os moradores conhecem os problemas e, muitas vezes, são parte deles.