Desde a chegada dos conquistadores portugueses, em 22 de abril de 1500, pela interação obrigatória com os nativos (erroneamente denominados de índios), começou a formação da língua geral: mistura do português com o tupi e guarani, com uma variante (nheengatu), usando também palavras castelhanas. Mais tarde, foi enriquecida com termos trazidos pelos escravos, principalmente os da língua “baruba” e “quimbundo” da Nigéria e Angola respectivamente. Seus adeptos maiores eram os bandeirantes, padres jesuítas e tropeiros. Em 1758, apesar dos oficiais e costumeiros saques de suas riquezas naturais pelos “colonizadores”, o Brasil já se firmara como nação, com tênues movimentos nacionalistas. Sua população era composta, em sua maioria absoluta, pelos brasileiros natos: filhos de portugueses, índios, afro-descendentes, mulatos, mestiços, mamelucos, etc. O número de habitantes era igual ou mesmo maior que o de Portugal.
No dia 17 de agosto do ano supracitado, o primeiro-ministro de Portugal, Sebastião José de Carvalho e Melo, que acabara de receber do rei José I o título de “marquês de Pombal”, baixou um decreto, extinguindo peremptoriamente a língua geral falada no Brasil, tornando obrigatório o uso do idioma português. Pior ainda, no decreto ficara determinado que todos aqueles que não obedecessem à determinação seriam presos, torturados e mortos. Lamentavelmente foi o que ocorreu: milhares de índios e cidadãos brasileiros foram sacrificados. Como muitos padres jesuítas protestaram diante de tamanha crueldade, também foram perseguidos e mortos, ocorrendo o mesmo em Portugal.
O marquês - déspota impiedoso - seguido por uma aristocracia improdutiva, julgava que a colônia só deveria servir para sustentar os gastos luxuosos da corte e que ela não deveria se tornar forte e com língua própria. Esse horror felizmente não durou muito tempo. No ano de 1777, foi o cruel ministro destituído de seu cargo. Ao final dos dezenove anos de horror, a língua geral estava banida, mas, seus termos, ao longo do tempo, retornaram ao linguajar popular e acolhidos posteriormente pelos dicionaristas.
Hoje, com a contribuição dos imigrantes, com o aportuguesamento de palavras estrangeiras e com os neologismos criados, temos o idioma português brasileiro com 445 mil palavras constadas em nosso maior dicionário, enquanto o dicionário oficial de Portugal, estático, possui cerca de 110 mil palavras. A punibilidade decretada pelo marquês de Pombal, ao contrário de prejudicar o Brasil, embora tenha causado muitos mártires anônimos, serviu para alicerçar o brio patriótico dos brasileiros e despertar o desejo de independência. Hoje, somos o principal líder dentre os países lusófonos.
O Brasil agigantou-se. Nem precisava assinar o acordo ortográfico que aí está (inexpressivo em relação ao que poderia ser). Temos a nossa língua geral enriquecida, denominada de português brasileiro que é, por si só, um outro idioma. Simplesmente possui a base lusófona. O brasileiro, ao falar, encanta os ouvintes estrangeiros. Nossas palavras soam para eles com sonoridade e musicalidade. Disso sou testemunha. Deles ouvi tais elogios, quando noutras e longínquas paragens estive.
Bel. José Perea Martins - membro da Academia Bauruense de Letras