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‘Exterminador de inseto’ age na estação

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Ferroviário aposentado, aos 88 anos Waldomiro Rett voltou a trabalhar na Estação da Paulista. Desta vez, no entanto, emprega sua força de trabalho para livrar de cupins e formigas o prédio que se transformará no “complexo de museus” de Bauru pelas mãos da Secretaria Municipal da Cultura. Ontem, enquanto borrifava um composto importado da Alemanha, o “exterminador de insetos” relembrou histórias da época em que freqüentava o local para prestar outro tipo de serviço.

“Trabalhei muito aqui. Assisti aqui o holocausto. Por quê? Vinha o trem com aqueles coitados miseráveis. Traziam uma lata de farinha de mandioca e o alimento acabava. Um deles, ao ver os filhos passarem fome, deu uma navalhada no pescoço bem ali”, conta.

Episódios tão tristes mostraram a Rett a bondade do povo bauruense que, de forma ecumênica, ajudava os migrantes nordestinos. Bem antes, o então ferroviário já tinha sua própria religião: a natureza.

Ao observá-la, tornou-se seu protetor. A devoção transformou-se não só em hobby como num segundo emprego. A especialidade em exterminar formigas e cupins ganhou fama nacional, após matéria publicada pelo jornalista Jair Aceituno, atual diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura. “Conheci o Waldomiro há uns 20 anos na margem do Tietê. Vi o homem falando que matava formiga rainha e fiz matéria. Fui eu quem o descobri, está no meu currículo”, explica.

Foi também Aceituno quem convidou Rett a prestar o serviço realizado ontem. “Ele está fazendo esse trabalho gratuitamente, é voluntário. Vai ser de grande valia para a gente”, comenta o diretor da secretaria de Cultura.

De acordo com ele, o Museu da Imagem e do Som já começou a ser instalado. “Vamos reformar esse bloco principal para instalar também o Museu Histórico. Naquele barracão, do lado da Feira do Rolo vem o módulo 2 do Museu Ferroviário”, esclarece.

No local, serão acondicionadas peças grandes e a Maria-Fumaça. “Nosso sonho dourado é pegar essa primeira linha e colocar a Maria-fumaça interligando o Museu Ferroviário com os outros dois. A gente está trabalhando nisso. Mas na linha que a gente opera têm muitos dormentes podres. A gente vai ter que trocar. Não adianta colocar um trem cheio de crianças quando tem possibilidade de tombar. Isso só um irresponsável faria”, conclui.

Arquivos ferroviários

A manutenção dos arquivos ferroviários oriundos da antiga Noroeste do Brasil também passa pelo ferroviário aposentado Waldomiro Rett. Vez por outra, ele visita o “complexo de museus”, onde o material está acondicionado, para livrá-los dos riscos de cupins, por exemplo.

A conservação dos arquivos consta em procedimento do Ministério Publico Federal, preocupado em preservar tudo o quem tem valor histórico e cultural.

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Rainha na mira

A técnica utilizada por Waldomiro Rett foca a rainha do formigueiro. Quando contaminada, o fim do formigueiro está decretado pois as operárias não trabalham sem líder. A rainha, no entanto, não precisa ser identificada durante o processo. Para chegar até ela, basta borrifar com veneno um simples soldado. Ele mesmo é capaz de contaminá-la. Mas quando o formigueiro percebe um eventual ataque, a rainha é protegida. Portanto, para atingi-la é preciso pegá-la desprevenida. Para tanto, o jeito é observar a natureza.

Perspicaz, Rett ainda foi amigo de Paulo Autuori, conhecido, inclusive, fora do País por estudar também as saúvas. “Ele me deu muita aula. Sou um homem de poucas letras”, diz, constantemente, ao expor seu aspecto modesto. Porém, na prática, é ele quem dá exemplo até para jovens biólogos. Debruçar-se sobre o assunto é importante porque a infestação de formigas, cupins e insetos de forma geral tende a crescer nas cidades de todo o País.

“Colocam fogo na cana e os insetos vêm para a cidade. Outro fator perigoso é que não tem mais sapos. Mataram todos. São eles que devoram insetos, que saem à noite para protegerem-se dos pássaros”, informa. Seu repertório lhe garantiu entrevistas até no programa do Jô Soares, além de convites para trabalhar em várias cidades do Estado de São Paulo. Ele nasceu em Jaú, vive em Pederneiras e gosta de dizer que é caipira da beira do Tietê.

“Vou fazer 88 anos. Meus amigos agora são só placa de rua. Morreram todos”, comenta, com sotaque alemão herdado dos avós. Ele, porém, permanece forte e lúcido. Quem sabe uma retribuição da natureza. “Um dia pedi a Deus que me desse paz e alegria. E Ele respondeu: trabalha, planta e cria”, conclui.

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