Viciado em pesca, apaixonado pelo Norusca
Peixes. Para qualquer lado que se ande pela casa do empresário e noroestino roxo Cláudio Amantini, é o que se vê. Nas paredes - em forma de quadros e fotografias -, nas portas, inclusive as de blindex - em forma de desenho -, na piscina, no lago. Perto de completar 80 anos - na próxima quarta-feira -, Cláudio Amantini é viciado em pescaria, como ele mesmo diz.
Já perdeu as contas de quantas vezes foi pescar. Herança do pai, que deu a ele, aos 6 anos, uma enxada e uma peneira - “para pegar gosto pela ‘lida’ e pela pesca desde cedo”, lembra. Na “briga” com os peixes na lista de preferências de Amantini, o Noroeste. É paixão pura, que nasceu quando Amantini ainda era menino. Ele tinha até “passagem secreta” para entrar no estádio - ainda na rua Quintino Bocaiúva - nos dias de jogo, já que criança não podia entrar pelas vias “normais”.
Hoje, Cláudio Amantini muda até o timbre de voz e os olhos ganham um brilho diferente - às vezes emocionado - quando fala do Noroeste, “time que faz a gente sofrer”. Só uma coisa derruba por nocaute, no primeiro golpe, a pescaria e o Noroeste da incondicional lista de preferências de Amantini: a pequena Claudinha, 4 anos, sua filha mais nova. “Ela tira o meu fôlego”.
Jornal da Cidade - O senhor não é bauruense?
Cláudio Amantini - Nasci em Itapuí. Vim para cá com 7 anos, para trabalhar. Eu morava em Itapuí. Meu pai tinha umas terras lá, trabalhava com café. Mas com a crise do café, tivemos de vir para Bauru. Isso em 1935 ou 36. Meu pai era marceneiro também e começou a trabalhar aqui. Eu e meu irmão Deodato começamos a engraxar sapato, carregar sacola na feira.
JC - Foi uma infância difícil?
Amatini - Muito difícil. Minha irmã teve úlcera de Bauru. Foi terrível. Meu pai teve um acidente de trabalho, precisou ficar sem trabalhar e tivemos de começar a trabalhar muito cedo. Na nossa infância, quando mais precisamos dele, ele nos faltou.
JC - Foi nesse tempo que começou sua história na Noroeste do Brasil?
Amantini - Eu era engraxate lá no edifício Abelha (na rua Primeiro de Agosto), era jornaleiro, carregava sacola na feira, mala na estação ferroviária. Mas minha história na Noroeste é comprida. Eu tinha de 14 para 15 anos e sempre quis ser o melhor em tudo o que fiz. O melhor engraxate, o melhor jornaleiro, o melhor carregador de mala. Na estação, até tinha uma turma que trabalhava comigo carregando mala. E levava “correiada” dos carregadores.
JC - Por quê?
Amantini - Eu era criança. E a estação tinha os carregadores contratados. A gente ficava lá de olho. Quando escapava alguém dos carregadores, a gente chegava e fazia o trabalho por uns trocados. Tinha o Ponciano Ferreira, que ficava de olho, porque a gente, como criança, não podia trabalhar. Certo dia, um jornaleiro do trem, Domingos Macegosa, não apareceu. E os jornais, naquela época, eram entregues de Bauru até Corumbá, dentro do trem. E naquela dia, com a falta do jornaleiro, Dalmo olhou para o Salomão Gantos e disse: “Aquele menino pode nos socorrer”. Eu estava com uma calça cáqui, da cor do uniforme do jornaleiro que até tinha ganhado de algum funcionário da Noroeste, que não me lembro o nome. E, resultado: me levaram para o Ponciano, que cuidava também do uniforme do pessoal que trabalha no trem, eu fui paramentado e me puseram no trem. E o Domingos me disse: “Você vai seguindo até encontrar com o jornaleiro”. E eu acabei indo até Porto Esperança. E vendi tudo o que tinha. Lá, estavam construindo a ponte sobre o Rio Paraguai. Isso quase em 1944. E em 46, inaugurou, mas aí eu já tinha passado para os carros-restaurantes e fui, inclusive, servir o general Gaspar Dutra, presidente na época, que veio para a inauguração.
JC - O senhor lembra o que serviu para ele?
Amantini - Churrasco.
JC - O senhor chegou a falar com ele?
Amantini - Não. Ele era um homem alto, muito calmo, mas não dava para chegar até ele. Tinha muito gente.
JC - Quanto tempo o senhor trabalhou na ferrovia?
Amantini - Eu me aposentei na ferrovia. Era jornaleiro de trem, passei para ser agenciador de carro restaurante e fui assumindo funções. E depois de aposentado, fiquei como concessionário dos carros-restaurantes. Posso dizer, sem medo de errar, que trabalhei minha vida toda na Noroeste.
JC - E veio dessas idas e vindas para o Pantanal seu conhecido gosto pela pescaria?
Amantini - Não. Isso é paixão antiga. No sítio, desde cedo, o pai dá para o menino uma enxada e uma peneira. A enxada que é para ir tomando gosto pelo trabalho. E a peneira, para ir tomando gosto pela pescaria. Ganhei minha enxada e minha peneira quando tinha 6 anos. Peneirei muito café e peguei muita pirambóia.
JC - Quantas vezes o senhor já foi pescar?
Amantini - Vixe! Perdi a conta.
JC - O senhor gosta tanto assim de pescar?
Amantini - Pelo amor de Deus! É um vício! Vem aqui ver uma coisa... (o entrevistado leva a jornalista, acompanhada do repórter fotográfico Malavolta Jr., para a área de lazer da casa dele e mostra, orgulhoso, um lago cheio de carpas coloridas - mais de 20 - e fotos, muitas fotos, das diversas pescarias que fez com os filhos e netos ao longo de vários anos). Cuido delas todos os dias. Quando vou chegando, bato na vasilha da ração e elas vêm todas. Comem na minha mão.
JC - O senhor ainda pesca muito?
Amantini - Oooô! Tenho um rancho no Pantanal. Vou sempre. Costumo dizer que eu sou o morador mais velho de Porto Esperança, lá no Pantanal. Eu estou lá desde 1955, por aí. Pena que as coisas mudaram muito. Quando comecei ir para o Pantanal, não tinha tanta degradação como agora. Agora, tem muito defensivo, muita cinza de queimadas. Não se encontra mais tantos peixes, dourado, pintado. A única coisa que não acaba é a piranha. Era preciso fazer um estudo para ver como evitar que o fertilizante chegasse até o rio.
JC - Mas pescar é muito chato, seo Amantini, muito parado, a hora não passa. A gente fica lá e o peixe não belisca, é muito chato...
Amantini - Você não sabe o que está falando... Quando você está pescando, não está pensando em nada. E mais, numa pescaria todo mundo é igual, ninguém é melhor que ninguém. Um tira sarro do outro porque pega o peixe, porque não pega, porque deixa escapar... É um vício gostoso, ninguém arruma briga com ninguém. Eu recomendo para todo mundo. Você precisa começar, viu?
JC - E depois da pescaria, qual seu vício?
Amantini - O Noroeste é paixão. O Noroeste é loucura. O Noroeste faz a gente sofrer. Nem queira saber.
JC - E como começou essa paixão?
Amantini - Quando eu era menino, carpimos um campinho ao lado do campo do Noroeste, lá na Quintino Bocaiúva, ainda. E eu abri um buraco e coloquei mato. Quando tinha jogo do Noroeste, a gente tirava o mato e entrava, porque não podia entrar criança. Então, o Noroeste faz parte da minha vida desde menino. Quando era jornaleiro de trem e chegava de viagem, ia jogar bola lá perto do campo do Noroeste. E não foi só a estação e a ferrovia que me trouxe para o Noroeste. O Amélio, goleiro do Noroeste, veio de Itapuí.
JC - Nesse período noroestino, o que mais marcou o senhor?
Amantini - Várias coisas me marcaram no Noroeste. Em 1970, quando assumi a presidência, o time estava numa situação muito ruim, com pagamento atrasado. Minha posse foi no Automóvel Club. Fiz um discurso emocionante, tremia mais que vara verde. Mas comecei a falar, falar... E quando terminou, todo mundo bateu palma. E eu montei o time. O primeiro jogador que comprei foi o Marco Antônio, volante do Linense, que acabava com a gente. E assim foi. E o Noroeste vinha disputando o campeonato, perdia, empatava... Gualberto Pires de Camargo, que era fisicultor, ia segurando o apito. Um dia, apareceu o Muca, na plataforma da estação, para conversar comigo. Disse que o time era bom e queria ser o treinador dele.
JC - E o negócio foi fechado.
Amantini - Eu levei o Muca lá para falar com o Gualberto. E na hora ele disse: “Mais um para ajudar, presidente”. E o Muca não quis assinar contrato, não quis dinheiro. Só me levou numa loja de automóveis na rua Ezequiel Ramos e me mostrou um carro amarelo, lindo, que não me lembro a marca agora. Ele disse que ia fazer o Noroeste subir e queria apenas o carro como pagamento.
JC - E o Noroeste subiu.
Amantini - Não perdemos mais jogo. Até que chegamos na final junto com Corintinha de Prudente, que tinha um timaço; Bragantino e Nacional. E fomos para a disputa. No primeiro jogo, com o Bragantino, no Parque Antártica, em São Paulo, de cara o Bragantino fez um gol. O Ramos, nosso centroavante, empatou e fez o segundo. Ganhamos de 2 a 1. O Nacional ganhou do Corintinha. Na final, Noroeste e Nacional, no dia 22 de setembro, véspera do meu aniversário. Os jogadores entraram em campo. Odair Colonha fez 1 a 0 para o Noroeste. Eu estava no banco, rezando com a nossa santa, Nossa Senhora Aparecida, e o Barnabé empatou. E vai bola na trave, e vai... E terminou empatado. A Federação marcou outro jogo para 48 horas depois. No dia da finalíssima, aos 31 minutos do primeiro tempo, Fedato marcou de cabeça e foi assim até o final. E o Noroeste subiu. Foi a maior festa. Foi um negócio cabuloso!
JC - E como senhor conseguiu conciliar tudo isso com o homem empresário?
Amantini - Encaminhei meus filhos, estou incentivando meus netos. Até hoje, vou de manhã na Amantini, assino o que preciso assinar e quando eles precisam, estou aqui. O que fiz, foi pensando nos meus filhos.
JC - O senhor tem uma menina pequena, não é?
Amantini - Claudinha. É só amor, só alegria. Tira todo o meu fôlego. Graças a Deus, tenho uma família maravilhosa.
JC - O senhor se sente um homem realizado?
Amantini - Completamente. Não posso pedir nada. Deus me deu tudo. Não tem
JC - Ainda tem alguma coisa que o senhor pretende fazer e não fez?
Amantini - Meus filhos sabem que eu quero trabalhar. Não quero tirar o espaço dos meus filhos, mas tenho um projeto, pode apostar que eu tenho, mas não vou revelar