Diz a Bíblia que o homem foi criado à imagem de Deus. Com Darwin ou sem ele, essa é a crença. Se a gente se olhar no espelho verá um ser parecido com todos os que andam pelas ruas das cidades do mundo. Então, ter preconceito é, no mínimo, esquisito, pois se somos iguais para as tradições místicas mais sábias, acabamos parte da mesma realidade. Tanto isso é verdade que o ódio está representado por um macaco carregando sacos com as sementes do mal. Assim visualizei o autor da mensagem. É a situação do perverso perdido no pantanal do rancor. Essas idéias apontam para o horror sentido ao ler o aviso, “listar quem estava praticando preconceito contra um colega” quando o preconceito vinha do remetente. Preso a um único ponto de vista, está cego em relação ao problema alheio e míope quando se trata do seu.
O outro: o diferente, o diverso do primeiro, o único. Bastide escreveu: “Eu sou mil possíveis em mim, não posso me resignar a querer apenas um deles.” A questão de identidade gera valores e provoca efeitos colaterais sérios em relação à vida e à sua dimensão biopsicossocial. Definir quem é o outro em sua condição física e emocional é uma maneira de responder às perguntas empurrando-as para outra esfera. Se você estivesse no lugar do outro seria igual a ele. A sociologia vê a humanidade como única e plural. Isso pressupõe um ser humano parecido ao seu semelhante e diferente em sua cultura. Tão desiguais que Tzvetan Todorov, da École Pratique de Hautes Études, passou parte da vida pesquisando o conceito de alteridade existente na relação de indivíduos pertencentes a grupos distintos. A justificativa encontra-se na situação do autor, emigrante na França, onde a relação entre nacionais e minorias está marcada pela xenofobia. No dia-a-dia, um colega diferente, no trabalho ou na escola, acaba sendo o outro. Alguns autores acreditam que todo preconceito seja medo. Mas, medo em excesso é distúrbio psiquiátrico.
A globalização gerou um fenômeno migratório grande e o ressurgimento do nacionalismo. Ambos somados aos distúrbios no sistema econômico apontam para o outro como responsável pelas mazelas do mundo. Estereótipos levam à idéia errada sobre questões culturais. Asiático sujo, negro menos inteligente, mulçumano violento, judeu avarento, são exemplos pejorativos. O que é certo? O que é normalidade? Apesar da diversidade, existe algo nos igualando: a essência humana. Pessoas devem ser tratadas como tal, não com rótulos ou adjetivos. Não dizia Sartre que existir é escolher livremente? Alguns são jardineiros por opção ou necessidade; outros designers; um escolhe ser feliz tendo ao seu lado um companheiro do mesmo sexo, imaginando: os incomodados que se mudem ou mudem o mundo, se puderem! O rabino Bonder afirma que “o ódio é um sentimento endêmico impossível de evitar, assim como a inveja sentida na expectativa de que o outro não seja bem-sucedido.” Uma pena que seres humanos se comportem como irracionais em relação aos seus iguais!
As autoras Myrella Soares Silva é aluna no curso de Design do Iesb-Bauru e Janira Fainer Bastos é articulista do JC