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Aquele abraço

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O Brasil explode em júbilo pela conquista do direito de sediar a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Ganhamos de goleada. Deixamos na poeira Chicago, Tóquio e Madri, graças a R$ 132 milhões gastos na campanha e ajuda dos três magos: da política, da bola e da literatura. O presidente Lula, do alto dos 89% de apoio popular, provou que é mesmo pé quente. Veja por quê: convenceu a Fifa a sediar aqui a Copa do Mundo em 2014; sacou petróleo do abismo oceânico; teve a pujança econômica do país internacionalmente reconhecida; e tira a América do Sul do esquecimento. Pela primeira vez o subcontinente vai viver o momento olímpico ao vivo. Lula tem versatilidade para dialogar com Chávez, com o rei da Espanha, com Barack Obama e com o presidente da China com a mesma desenvoltura, mesmo sem falar outra língua além do português. Pelé, o atleta do século 20, também deve ter ajudado a influenciar a muitos dos 160 delegados do colégio eleitoral olímpico, principalmente os da África, onde é um deus. Paulo Coelho, nosso campeão de venda de livros já é conhecido pelos seus poderes autodeclarados, como o de afastar e atrair chuva. Quem sabe fez mágica também com o voto já dentro do envelope.

Em Tóquio, que já foi sede olímpica, a população recebeu com indiferença o veredicto. Sabe que o pesadelo permanente dos terremotos é mais importante do que qualquer sonho olímpico. Os “chicagoans”, como eles chamam os habitantes das pradarias, já haviam se manifestado em pesquisa de opinião serem contra sediar os Jogos. Estes só serviriam para estragar o verão de 2016. Obama também se livra de críticas por gastos excessivos e atrasos nas obras, fatalidades em eventos como este. Madri, marcada por atentados, única que fazia questão, queria se livrar de mórbidas lembranças.

A palavra que exprime este momento é a esperança. A esperança que nos move de superar as mazelas históricas; a esperança que pode motivar a sociedade brasileira a superá-las e a todas as realidades perversas que ainda nos perseguem.Nada disso desaparecerá com a Olimpíada, é verdade.As tragédias diárias do cotidiano das grandes cidades ou do campo, somente são amenizadas com esforço coletivo, crença e vontade política. O que vem pela frente é um desafio. Este sentimento não se esgota apenas na realização da Copa do Mundo ou da Olimpíada. Precisa ser canalizado na preservação do que conquistamos como Nação, e naquilo que precisamos conquistar para sermos um país justo e promissor. Estes dois eventos de magnitude exigem muito mais do que erguer estádios, pistas de atletismo ou piscinas de competição. Ambos entregam a governantes e à sociedade a oportunidade de corrigir insuficiências tradicionais, tanto na área da infra-estrutura esportiva e na montagem de condições para o turismo, quanto ao estímulo à atividade esportiva, à saúde e à educação. Os nossos campões de ginástica olímpica, ganhadores de competições internacionais e responsáveis por colocar o Brasil em pódios olímpicos, estão sem patrocinadores há meses, e sobrevivem de favores.

O Rio vai ter que mostrar que não será apenas o paraíso dos grandes empreiteiros de obras. O que mais chama a atenção dos turistas estrangeiros não é a paisagem. A cidade dos “morros mal vestidos” impressiona pela promiscuidade entre a favela e o asfalto. A cidade de São Sebastião esteve sempre fadada ao martírio do santo padroeiro, atingida pelas flechas da ignomínia, do desleixo, do abandono e da incúria da politicagem. O Rio, mesmo flechado no próprio coração como o santo mártir, mesmo assim continua lindo. É preciso quebrar o paradoxo para fazer valer o que dele disse Le Corbusier: “a cidade mais feliz do planeta”. Talvez porque o carioca seja capaz de rir das próprias misérias. “Salve Estácio, Salgueiro e Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz!”

O Brasil é hoje a décima economia do mundo e chegará a 2016 como a quinta. Precisa utilizar essa condição para comprovar que a sua ascensão global e a curva indicativa da sua presença positiva no mundo são frutos do trabalho e competência.O olhar do planeta vai conferir. Uma competição como os Jogos Olímpicos também pode funcionar como plataforma de lançamento de gerações inteiras para uma vida mais saudável. Este é o legado que nós todos esperamos. A conferir em 2016. Gil, me ajuda: “Salve o Rio de Janeiro, aquele abraço. Salve o povo brasileiro, aquele abraço”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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