São Paulo - O Brasil foi tomado por uma onda de greves nas últimas semanas. O fenômeno pode marcar 2009 como o ano com o maior número de paralisações dos últimos tempos. No momento, há greves de metalúrgicos e bancários, duas das categorias que mais empregam no País.
Muitas empresas alegam dificuldades por causa da crise econômica, por isso têm resistido o quanto podem na queda de braço com os sindicatos de trabalhadores. Esses, por sua vez, garantem que o pior já passou e durante o momento mais contundente da crise colaboraram na recuperação dos negócios. Para ganhar força no momento de negociar, os trabalhadores têm optado por cruzar os braços diante da dificuldade de conseguir um aumento real, além da reposição da inflação dos últimos 12 meses.
Ex-ministro do Trabalho, o professor de economia Walter Barelli diz, com segurança, que “há um renascimento das greves”. “Nos últimos anos havia um clima de maior calmaria no campo trabalhista.”
Agora, no entanto, o ambiente é outro, diz o professor. “Quando a crise estava violenta, pediram aos empregados que reduzissem a jornada de trabalho e os salários. Ninguém falou naquela época de aumento real. Mas a crise agora aparentemente passa pela fase final e os trabalhadores perceberam que seus setores, como o financeiro e o automobilístico, perderam mesmo nos Estados Unidos, não por aqui.”
Presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, explica o motivo que levou ao aumento das greves. “A situação hoje é bem diferente de um ano atrás, mas há empresários que preferem manter o discurso e querem oferecer apenas a reposição da inflação, o que é muito contraditório diante dos índices de produtividade e lucro das empresas e bancos. Não dá para comparar 2008 com 2009”, argumenta.
Estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostrou que em 2008 houve recorde de greves no País. E o coordenador do levantamento, Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese, já trabalha com a possibilidade de 2009 superar o ano passado.
No ano passado, com as dificuldades econômicas, segundo o diretor do Dieese, “os trabalhadores foram colocados na defensiva depois de cinco anos de bons resultados”. “A pretexto da crise, ocorreram demissões, o que obrigou os sindicatos a negociar redução de salário. Agora, no entendimento dos trabalhadores, diante do aumento das horas extras e da recuperação da produção e dos lucros, é hora de recuperar perdas”.
Foi nesse ambiente que os trabalhadores, em muitos casos, pressionaram os sindicatos por negociações mais favoráveis, conta Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força Sindical.
“É uma autocrítica. Até o movimento sindical estava com o freio de mão puxado. Algumas direções sindicais foram precipitadas nas negociações e acabaram atropeladas pelos trabalhadores”, diz, referindo-se a alguns casos em que acordos foram fechados entre sindicatos e empresas e, mais tarde, questionados pelos empregados.
Paulinho tem certeza de que daqui até o fim do ano muitas greves vão pipocar pelo País. “Chorar pitangas não vai colar na hora de negociar. Vão dar aumento por bem ou por mal.” De setembro a dezembro, 27 categorias têm datas-base.
Na CUT, a previsão é semelhante. “Os trabalhadores não fazem greve porque querem. Se os empresários continuarem com a mesma filosofia de dificultar as negociações, com certeza vem mais greve por aí”, prevê José Lopez Feijóo, vice-presidente da CUT nacional.