Bauru, anos 50. Wanda, 10 anos de idade. Jair, 9. Namorar naqueles tempos era muito complicado, porque toda donzela tinha um pai que era uma fera. Namoro proibido, precoce e conturbado. Ela morava na avenida Nossa Senhora de Fátima, que ficava então no meio do mato. O asfalto ainda não havia chegado por lá. Ela aprendia corte e costura na Escola do Sesi, que ficava na rua Primeiro de Agosto.
Jair ia buscá-la. Eles subiam a rua Rio Branco até a praça Portugal, em frente à fábrica da Coca-Cola. Ali ele se despedia de Wanda. Não queria correr o grande risco de dar de cara com o pai dela. Mas o pai acabou descobrindo o namoro.
E Wanda levou inúmeras surras pelo namoro proibido. Não largou o namorado. Um amor muito forte unia os dois. Ela foi apanhando do pai até os 17 anos. O pai, vencido pelo cansaço, resolveu aceitar o namoro. Jair foi para Jaú, estudar na Escola Industrial, onde ficou por quatro anos. No entanto, eles se encontravam nos finais de semana, na matinê do Cine Bauru e na missa na Igreja de Nossa Senhora de Aparecida.
O namoro prosseguiu sempre muito firme. Casaram-se no dia 30 de setembro de 1967. Wanda tinha 22 anos. Jair, 21. Alguns meses depois ela engravidou, mas sofreu um aborto espontâneo. Foi um grande trauma para ela. No dia 20 de novembro de 1968, Jair retornava do trabalho a pé, subindo pela rua Alto Purus - o fato está registrado no JC de 22 de novembro de 1968, página 8 -, na esquina da Alto Purus com a São Lourenço, Jair verificou que um jipe estava sendo furtado. Eram 23h50. Ele interveio no ato delituoso e foi friamente baleado. Mesmo assim conseguiu chegar, cambaleando, até sua residência. A casa ficava a uns 100 metros dali.
Jair foi socorrido por familiares e levado ao Hospital de Base. Uma hora e vinte e cinco minutos após ter sido baleado, ele falecia. Wanda tentou inutilmente prosseguir seus estudos na Faculdade de Direito (ITE), mas a dor da perda não permitiu. O homicida nunca foi descoberto. Wanda (hoje com 62 anos) não se casou de novo. Jair foi o único e verdadeiro amor de sua vida.
Gilberto Sidney Vieira