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Sindicato avalia modelo como enganoso

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

A diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) Suzi da Silva acredita que o governo pratica uma política enganosa de educação. “No modelo atual, sobra tudo para a escola. Nós, professores, tivemos de assumir um papel que não é nosso. Somos educadores, mães, amigos, psicólogos. Logo que ingressei na profissão, conheci um garoto da 2.ª série - muito bom aluno, por sinal - que vivia me pedindo que o levasse para minha casa. Quando chegava os finais de semana, ele ficava desesperado, pois sabia que iria passar fome. A única comida a que ele tinha acesso era a merenda servida na escola. No final, a mãe dele acabou morrendo de cirrose, de tanto beber”, relata.

Na opinião dela, seria necessário que os pais se envolvessem no processo de aprendizado dos filhos, no sentido de cobrarem melhores condições nas escolas. “Se algo não for feito, a sociedade é que vai acabar pagando o pato”, afirma Silva.

O professor do ensino médio Almir Ribeiro concorda que o modelo atual é enganoso. Ele lembra que, até os anos 60, vigorou no País um modelo excludente de ensino, em que os estudantes precisavam prestar exames de admissão para poderem avançar de série. “A escola pública era pensada para uma ‘elite’, tanto em termos financeiros quanto culturais”, explica.

A partir da década de 70, o governo militar passou a promover a universalização do ensino. “O projeto desenvolvimentista da ditadura necessitava que a mão-de-obra brasileira estivesse minimamente qualificada”, diz Ribeiro.

De acordo com ele, esse processo de inclusão partia do princípio de que as escolas continuariam recebendo pessoas extremamente preparadas e interessadas em aprender. “Os portões foram abertos, e desde então estamos esperando aqueles alunos de antigamente, que nunca chegam”, afirma.

Na opinião de Ribeiro, o discurso educacional é enganoso, pois não se sustenta na prática. “Se você pede em sala de aula uma redação sobre ecologia, por exemplo, os alunos irão repetir o os discursos dominantes que a sociedade apregoa. Depois de corrigidos, esses trabalhos serão amassados e jogados no lixo. Nossas escolas são escolas de papel. O que elas ensinam não tem relação alguma com a prática social”, argumenta.

Ribeiro ensina história em escolas públicas e particulares. “Tenho cerca de 150 alunos na 1.ª série do ensino médio. 72% deles não são capazes de identificar a cruz como um símbolo do cristianismo. 80% dos meus estudantes de 3.º ano não têm qualquer informação sobre o ‘pré-sal’ (reservas de petróleo encontradas recentemente, pela Petrobrás, abaixo de uma espessa camada de sal no subsolo marinho, numa faixa que se estende por 800 quilômetros, de Santa Catarina ao Espírito Santo)”, afirma.

Na opinião dele, nunca se falou tanto em educação como hoje em dia. “A educação vai morrer afogada na própria saliva. Nossa cultura não valoriza o saber. Nossa primeira universidade foi criada somente no século 19. Enquanto isso, a América Espanhola já contava com instituições de ensino superior desde o século 16”, argumenta.

Ribeiro acredita que, antes de tentar incutir conceitos complexos como cidadania nas cabeças das crianças e adolescentes, as escolas deveriam trabalhar “passo-a-passo”, a partir da realidade dos alunos. “Antes de fazer os estudantes pensarem criticamente, vamos alfabetizá-los”, pensa.

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