Cultura

Bauru perde o talento de Paulo Keller

Maíra Soares
| Tempo de leitura: 5 min

Bauru perdeu uma de suas figuras mais versáteis e talentosas: o decorador, artista plástico, apresentador, figurinista, cantor, carnavalesco, enfim, o artista Paulo Roberto Keller, de 58 anos. Ele faleceu ontem, às 12h50, após uma parada cardio-respiratória. O corpo está sendo velado no Velório Terra Branca, na Vila Falcão, e será sepultado, às 12h de hoje, no cemitério São Benedito.

Foi cogitada a possibilidade de Paulo ter sido vítima de gripe suína (Influenza A - H1N1). Mas, segundo o amigo Antônio Dangio Neto, Paulo já tinha ido ao Hospital de Base anteontem com muita dificuldade para respirar, mas foi medicado e teve alta. Ninguém teria comentado nada sobre a possibilidade de gripe. Ontem pela manhã, quando acordou, ele se queixou de muitas dores nas costas e foi levado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ao Pronto-Socorro Central, onde sofreu a parada cardio-respiratória e faleceu.

Em entrevista ao JC, no ano passado, Paulo se autodefiniu como alguém que veio ao mundo para trazer alegria. “Eu acho que vim para esse mundo para pôr sorriso no rosto dos outros. Sorriso por uma casa gostosa, com uma decoração bonita, uma música gostosa, uma roupa confortável. A minha tarefa é pegar o sonho de uma pessoa e transformá-lo em realidade”, disse.

Essa característica marcante de sua personalidade vai deixar saudade entre seus muitos amigos. Ricardo Carrijo, ex-presidente da Escola de Samba Mocidade Independente, disse que sentirá falta do parceiro de tantos carnavais vitoriosos. “Tinha uma consideração muito grande pelo bom gosto, pela capacidade de fazer coisas bem feitas, elaboradas e bonitas. Fizemos muitos desfiles campeões na Mocidade. ‘Viagem à república das bananas’ e ‘Morená, o paraíso da criação’, em 89 e 88, foram alguns dos desfiles vencedores.”

Paulo Madureira, ex-vereador e amigo de Paulo também dos carnavais, acredita que Bauru perdeu uma grande figura e que vai ter que lamentar os nove anos sem carnaval de rua, e conseqüentemente, sem poder admirar a arte de Keller. “A notícia me pega de surpresa. Lamento muito. Quem está perdendo cada vez mais é nossa cultura, nosso Carnaval, que deixamos de aproveitar nesse tempo de nove anos sem Carnaval de rua; deixamos de aproveitar um grande artista de Bauru.”

Avelino de Souza, presidente da Liga das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas de Bauru (Lesec), também lamenta a perda. “O Paulo foi uma tremenda figura, um grande camarada. Vai deixar muita saudade”, declara.

Júlio Kosaka, presidente do Clube Nipo-Brasileiro, lembra que, no início da década de 70, o carnavalesco ajudou o clube a fazer seu primeiro Carnaval de rua. “Ele levou a idéia de fazermos o Carnaval de rua, elaborou um carro alegórico inspirado na Praça das Cerejeiras e cerca de 80 pessoas desfilaram pelo clube na avenida Rodrigues Alves. Ele vai fazer muita falta”, lamenta.

Paulinho, como era chamado pelos amigos, decorou, por muitas vezes, os eventos do Bauru Tênis Clube (BTC). “O Tênis vê com muita tristeza o falecimento do Paulinho porque ele foi um grande colaborar do clube em muitos eventos de forma graciosa e voluntária. Ele ocupava um espaço na cidade que vai ser muito difícil de preencher”, declara Luiz Carlos Gonçalves Filho, presidente do BTC.

No ano passado, o artista recebeu uma homenagem de amigos no bar Dedo de Moça no projeto Talentos Bauruenses. Durante três dias, uma exposição mostrou todas suas facetas e Paulo ainda cantou acompanhado pelo pianista Wellington Escobar. “É uma perda irreparável. Fizemos essa homenagem para valorizar esse talento de Bauru. Ele gostava da cidade, brigava por ela e nunca se negou a ajudar ninguém quando o assunto era colaborar com a sociedade”, diz Roberto Guilherme Oliveira, proprietário do bar.

O secretário municipal de Cultura, Pedro Romualdo, acredita que a morte do decorador é uma perda significativa para a cultura bauruense. “O Paulinho era uma figura extraordinária, sempre pra cima, participando das atividades culturais e artísticas de Bauru. A perda é lastimável, a cidade sente. É uma pessoa que vai fazer muita falta para nossa arte e nossa cultura.”

Vera Lúcia Kirchner Juliano, amiga desde a infância, acredita que poucos conheceram a real personalidade do decorador. “Eu realmente perdi um amigo. Muito poucas pessoas o conheceram de verdade. Ele era extremamente tímido, introvertido, que jogava na defensiva. Muitas vezes se tornava arrogante para esconder a timidez. Mas quando ele considerava alguém amigo dele, ele não media esforços para agradar”, conta. Paulo Keller não teve filhos, mas deixa saudosos seus irmãos Maristela, Mariângela e Oswaldo e seis sobrinhos.

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História

Os talentos de Paulo Keller começaram a aparecer logo cedo. Aos 16 anos, ele começou como vitrinista da Tilibra. Anos depois, foi trabalhar em Jaú como desenhista de moda para uma loja. Um belo dia, alguns organizadores do Carnaval daquela cidade pediram que ele desenhasse fantasias. Daí em diante, o Carnaval entrou de vez em sua vida.

Paulo passou a desfilar nas escolas de Jaú e Bauru e a participar ativamente da construção da festa destas cidades. Em Bauru, participou de, pelo menos, 30 carnavais. Foi carnavalesco das escolas: Mocidade Independente, Imperatriz, Camisa e Cartola. Ele fazia figurino, alegoria, desenhava toda a comissão de frente, a ala das baianas e ainda fazia enredo. Chegou a ganhar mais de 15 títulos do samba baurusense.

As facetas de Paulo não pararam de se multiplicar, ele passou a fazer decoração de residência, de festas, de eventos, de interiores, foi apresentador de rádio e de TV. O último talento que ele descobriu foi o canto.

Em seu extenso currículo, Paulo Keller tem trabalhos com várias personalidades. Entre elas, Sandy, o cantor Daniel e Xuxa, quando ainda era modelo. Ele dirigiu dois desfiles dela em Bauru, um ano antes de ser contratada pela Rede Globo.

O último trabalho de Keller foi a decoração de um evento gastronômico na última quinta-feira, na Chácara Santa Felicidade. Ele ainda deixou um projeto sem concluir. Paulo pretendia soltar sua voz junto com uma banda no mês que vem.

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