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Nobel da cooperação

Arnaldo Jardim
| Tempo de leitura: 3 min

Ainda sob o efeito da crise global, a designação do Prêmio Nobel de Economia para os professores norte-americanos Elinor Ostrom e Oliver Williamson causou certo estranhamento entre os economistas mais ortodoxos, mas apontou um caminho importante em relação ao papel das organizações sociais. Apesar de não ter sido o escopo dos estudos, tanto a tese de gestão comunitária de recursos naturais (Ostrom) como o processo de tomada de decisões das empresas (Williamson), ambos me remetem aos princípios que regem o verdadeiro cooperativismo.

É cedo para uma reflexão mais aprofundada sobre a crise financeira que balançou as principais economias do mundo. Só que algumas lições já podem ser aprendidas.

As regras de mercado se mostraram falhas ao privilegiar as análises macroeconômicas em detrimento da realidade das pessoas, assim como a busca pelo lucro por si só desconectada da promoção do bem estar social também não tem lastro, fomenta apenas a especulação e aumenta as desigualdades sociais no mundo. Ficou claro que o lucro não pode ser encarado como fim, mas o meio para estimular grandes transformações sócio-econômicas.

Ostrom e Williamson são cientistas sociais que analisam as decisões tomadas fora do mercado, propondo em seus trabalhos uma nova abordagem econômica, no sentido de ampliar o seu espectro meramente quantitativo para um campo multidisciplinar, em que as organizações sociais ganham cada vez mais espaço, em detrimento do papel do Estado e de suas regulações. Teses que vão de encontro à realidade atual, em que o Estado foi chamado para socorrer o mercado.

Na contramão de dogmas mercadológicos, o trabalho de Ostrom fez cair por terra à tese de que quando comunidades administram recursos ou bens finitos, acabarão por destruí-los, e que a melhor é uma regulação centralizada ou a privatização.

Com base em pesquisas de campo sobre gestão de áreas de floresta, suprimento de água e pasto, ficou comprovado que a gestão comunitária pode ter resultados melhores do que o previsto, principalmente, em se tratando de políticas públicas.

Já o trabalho de Williamson procura explicar o processo de tomada de decisão das empresas e como elas se estruturam. Ele descobriu que muitas decisões econômicas que, segundo a teoria convencional, deveriam ser deixadas por conta do mercado, na verdade, funcionam melhor se forem tomadas dentro da empresa.

Na prática, em mercados de maior competição faz mais sentido negociar com parceiros externos. Em mercados menos eficientes, com menos competição, pode ser melhor à empresa desenvolver toda a cadeia produtiva, da matéria-prima ao produto final, o que antes poderia ser considerado um dogma anticompetitivo pode ser uma resposta aos custos de transação.

Desta forma, é possível estabelecer vínculos, mesmo que involuntário, entre ambas as pesquisas com os princípios do cooperativismo com: a adesão voluntária e livre (sem qualquer tipo de discriminação), o interesse pela comunidade, a autonomia e independência, a educação, formação e informação, a gestão democrática, a participação econômica dos membros, a intercooperação, além, é claro, da responsabilidade social.

Hoje, a maioria dos países desenvolvidos que contam com os melhores índices de qualidade de vida, a cultura cooperativista tem um lugar de destaque. Nos EUA, existem mais de 150 milhões de pessoas associadas a cooperativas, o que representa 60% da população. Em países como a Dinamarca, não existe uma legislação específica para o cooperativismo. Na Alemanha, 80% dos agricultores e 75% dos comerciantes estão organizados desta forma, onde o próprio movimento cooperativo instituiu um sistema de Controle e Auditoria das Cooperativas, que faz todo o tipo de fiscalização e acompanhamento das sociedades cooperativas.

Enquanto nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, se verifica nas legislações uma forte atuação dos órgãos governamentais, de controle e fiscalização das cooperativas. Talvez, o exemplo dado pelo Prêmio Nobel sobre a capacidade da gestão comunitária e o estudo das organizações possam servir para que possamos assumir o desafio de fazer com que o cooperativismo nacional continue a crescer, de maneira sustentável, transformando a realidade de um País tão desigual, a partir dos princípios que regem o verdadeiro cooperativismo.

O autor, Arnaldo Jardim, é deputado pelo PPS-SP

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