A imprensa noticiou que uma menina de 7 anos de idade, aluna de uma escola estadual de Campinas (SP), após brigar na sala de aula com uma colega, foi levada para a Delegacia de Polícia, por policiais militares, em carro da polícia. Segundo o noticiário, após passar pela Delegacia de Polícia, a aluna foi entregue à família, assustando os familiares ao receberem a filha de 7 anos, entregue por policiais militares, levada no carro da polícia.
Confesso-me perplexo com o fato ocorrido, tal situação me fez voltar ao passado, quando ingressei no magistério público primário do Estado, em 1956. Comporta registrar. Um colega e eu lecionávamos em escola rural, em fazendas poucos quilômetros de distância uma da outra.
Num de nossos encontros, o colega contou-me que havia faltado vários dias, ficando a escola fechada. Por dificuldade de comunicação, na época, não havia luz elétrica, muito menos telefone na fazenda, sem condições de avisar de sua ausência.
No seu regresso à escola, foi informado que alguns pais de alunos, preocupados com os filhos sem aula, as crianças perdendo as caminhadas até a escola todos os dias, por encontrá-la fechada, foram à cidade prestar queixa na Delegacia de Polícia, pela ausência do professor. O delegado de polícia disse aos pais: “Não tenho nada com isso. Esse problema é com a Delegacia de Ensino, falem com o delegado de ensino”. Atitude correta do delegado de polícia.
Outrora quando a direção da escola informava aos pais procedimento irregular dos filhos, por indisciplina, brigas entre colegas, desrespeito para com os professores, problemas de aprendizagem, não realização de tarefas passadas pelos professores. os pais compareciam na escola, pediam desculpas ao diretor e professores na frente dos filhos. Chegavam a dizer aos filhos que chegando em casa iam ficar de castigo. Muitas vezes até palmadas os filhos levavam dos pais que se sentiam envergonhados perante o diretor e professores, pelo procedimento dos filhos.
Hoje, as escolas são desconsideradas, diretor e professores são desrespeitados pelos alunos e pelos próprios pais. Pais chegam a desacatar diretor e professores, defendendo os filhos, afirmando que vão à Delegacia de Polícia registrar BO. Inacreditável! Problemas de comportamento indisciplinar ou pedagógico na aprendizagem dos alunos, se resolvem na escola, com o diretor e professores, se se trata de um problema mais grave, na Divisão Regional de Ensino, com os supervisores de ensino, nunca na Delegacia de Polícia.
Outrora, os professores do ensino secundário (curso ginasial e colegial), tinham liberdade de cátedra, conforme a gravidade do problema, o corpo docente da escola se reunia em congregação dos professores, deliberavam sobre o assunto. O diretor não era a única autoridade a decidir, ouvia-se a congregação dos professores.
O livro “Educação não é privilégio”, do eminente e saudoso pedagogo brasileiro Anísio Teixeira, patrono do INEP, órgão do Ministério da Educação, registra: “Dentro do espírito de escola como instituição profissional, a escola, quando pública, faz-se uma instituição pública especial, gozando de autonomia diversa de qualquer pura e simples repartição oficial, pois a dirigem e servem profissionais específicos, que são mais profissionais do que funcionários públicos”.
Como se constata, o professor hoje não está apenas desvalorizado pelo péssimo salário que recebe, mas também privado da necessária autoridade que necessita e precisa possuir, como profissional do ensino e formador das novas gerações para o exercício consciente da cidadania.
Rodolpho Pereira Lima - professor aposentado, é membro da ABLetras