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Médico conta como superou a hanseníase

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 3 min

Um drama com final feliz. Assim o médico e escritor José Corsino Filho qualifica sua trajetória de vida, contada em quatro palestras realizadas entre terça-feira e ontem, em Bauru. Aos 74 anos, ele conta como superou a hanseníase, diagnosticada ainda na infância, doença que o fez ser internado duas vezes e que provocou, segundo suas próprias palavras, o “ingresso” precoce na fase adulta ao ser tratado longe de outras crianças, além de estar afastado da própria família, numa época em que a doença era cercada de pouca informação e muito preconceito.

Corsino, que ministrou palestras no Sest/Senat, Instituto Lauro de Souza Lima e Universidade do Sagrado Coração (USC), acaba de lançar um livro em que detalha sua trajetória, desde a época em que foi diagnosticado com a doença, o isolamento em colônias, até a vitória sobre a doença, que o motivou a estudar medicina, atividade que exerce até hoje, no Rio de Janeiro.

Intitulada “Eu Estava Lá”, a obra literária também vai ganhar uma versão para as telas em breve, por meio de um documentário, em fase de produção, concebido pela produtora carioca carioca “Cavideo”. A intenção do documentário, conforme o próprio personagem principal, é incentivar a divulgação de programas de inclusão e combater o preconceito ainda presente acerca da lepra.

“Ainda existe esse resquício (de preconceito). Mas temos hoje muita gente, inclusive artistas, engajados em campanhas de divulgação”, pondera. “Há muita má informação ainda entre as pessoas”, atenta o médico, que, apesar de admitir a existência de discriminação, afirma jamais ter sofrido preconceito. “Em relação a mim não há, mas em relação à doença sim”, diferencia.

Ele relaciona a discriminação sobre a doença, totalmente tratável, assegura o médico e hanseniano, justamente a falta de informações, tanto acerca de contágio quanto tratamento. “Daí trabalhamos nessa verdadeira cruzada, porque essa história (relatada no livro) felizmente nunca vai se repetir com uma criança solitária ‘promovida’ a adulto”, ilustra, ao recordar os difíceis anos de internato com doentes mais velhos.

Internação

Nascido na cidade mineira de Viçosa, Corsino foi internado logo após o contágio. Ele conta que fugiu da primeira colônia para poder se mudar com a família para o Rio de Janeiro, onde passou por tratamento de cinco anos. Curado, ele se engajou no Exército e, após dar baixa na caserna, retomou trabalho - foi servente da prefeitura carioca - e estudos, até se formar médico.

Na Capital fluminense, atuou como perito do antigo Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), atual Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). Junto ao atendimento em clínica no bairro de Acari, um dos mais pobres do Rio de Janeiro, Corsino, que é professor assistente de duas faculdades, também dirigiu o Serviço de Epidemiologia, também no Rio.

Escrito no ano passado, o livro - ilustrado com fotos antigas e de uma “viagem sentimental” que fez pelos locais onde passou a infância, internado ou não - de acordo o autor, era projeto antigo, mas com materialização somente possível agora, em decorrência do acúmulo de atividades do médico. “Até ano passado eu não tinha uma linha escrita a respeito, mas, em janeiro do ano passado, um neto encontrou em meio a fotos antigas a imagem que é capa do livro (fachada do instituto mineiro onde ficou internado durante a infância)”, lembra. “Ninguém sabia, inclusive uma irmã, que ficou sabendo da história no dia do lançamento do livro. Tudo ficou guardado na minha cabeça”, acentua o escritor, que, com os olhos marejados, afirma dedicar a obra à mãe.

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