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‘Era desesperadora a situação dos pacientes'

João Jabbour
| Tempo de leitura: 13 min

Pergunta - E a alimentação em si, era muito ruim?

Resposta - Ah, a alimentação dos pacientes era outro absurdo. Por exemplo, os pacientes do SUS, mesmo que a dieta fosse leve, dieta geral, dieta hiposódica, os pacientes do SUS tomavam sopa todos os dias, todos os dias sopa, ou era canja ou era sopa de macarrão, não mudava o cardápio, não tinha uma sobremesa, não tinha uma fruta, não tinha um suco, quando tinha suco era só suco de limão e de groselha, e eu tinha dó dos pacientes porque paciente que fez cirurgia, paciente de idade, ele fica debilitado quando está no hospital, então eles não aceitam muito a alimentação, tem que ter uma diversidade, por exemplo, um suco, uma fruta, uma vitamina, mas o hospital não fornecia, e quando se questionava da alimentação eles falavam que é a dieta que está prescrita, mas o médico prescrevia dieta geral, sucos à vontade, bolacha, e não tinha, o hospital não fornecia. Já para o setor particular, que são os primeiros frente par e ímpar, lá sim a alimentação à noite era uma dieta geral, dieta balanceada, arroz, feijão, bife, gelatina, frutas, suco de frutas, lá sempre tinha, agora para o SUS nunca, e eu sempre questionei, desde que eu entrei, essa questão de alimentação.

Pergunta - E para os funcionários?

Resposta - Eles forneciam janta à noite para os funcionários, só que a janta era fria, a janta também era azeda, sempre em marmitex, deixavam lá em cima sem nenhuma estrutura para a conservação dos alimentos. E os pacientes, por exemplo, internados, eu trabalhava no setor da roupa e isso eu posso falar com toda a certeza, no pós-operatório, eles tinham que ter uma alimentação leve, mas indicavam vitamina e suco, eu cansei de ligar na cozinha e pedir para os pacientes vitamina, porque no calor eles não conseguiam tomar chá quente, e não tinha, não tinha, muito difícil, eu tinha que brigar muito, tinha que falar com a nutricionista, passar por uma série de pessoas, e ser até ameaçada, porque não tinha alimentação para os pacientes.

Pergunta - Na ala particular existiam privilégios?

Resposta - Vários privilégios na particular. Por exemplo, o ano passado, 2008, vários pacientes SUS internavam lá, ficavam em apartamentos tendo esse privilégio, e eram pacientes amigos de diretores, amigos de funcionários que tinham um certo cargo no hospital, e era SUS, e vários pacientes de Avaí (o ex-superintendente Reinaldo Rocha foi prefeito de Avaí no mandato passado) foram internados nesse período de 2008. Faziam cirurgias, exames como angioplastia, vinha até de van para trazer os pacientes de Avaí para fazer os exames no Hospital de Base, e ficava em apartamento, tinha esse privilégio sim.

Pergunta - E no setor da Hope, Hope é uma espécie de uma UTI pós-cirurgia cardíaca, é isso?

Resposta - Isso, a Hope é uma UTI coronariana de cirurgia cardíaca, mas também abriga a neurocirurgia e ortopedia, de próstata e de quadril, e pacientes idosos.

Pergunta - E como é que ela funcionava?

Resposta - Para começar, essa UTI ficou três anos recebendo verba do governo e nunca ficava pronta, nunca, nunca, nunca, nunca. O ano passado, em 2008, em fevereiro ela foi concluída. Realmente uma UTI moderna, com equipamentos de primeiro mundo, em termos de equipamento, bem equipada. Só que o que funcionava na Hope, o ar-condicionado, quebrou. E ficou dois meses quebrado. E a Hope é inteirinha fechada, não tem janela, não tem nada, não pode abrir. Só que os pacientes ficaram no calor intenso, e os pacientes começaram a sofrer com essa alteração de clima, eles começaram a sofrer muito, porque as camas da Hope são todas de plástico, de napa, e esquentam muito, e os pacientes começaram a sofrer porque não tinha como eles se virarem, porque cirurgia cardíaca deixa dois dias na cama sem poder levantar, os pacientes da neurocirurgia também, os pacientes que estavam entubados, os pacientes graves tiveram consequências porque era muito calor, muito calor, não tinha como entrar nenhum ar dentro do hospital, não tinha como ventilar e os pacientes estavam sofrendo com as consequências disso, e eu questionava a gerente de enfermagem que não podia acontecer isso, porque eles, além de estar com dor, estar naquela situação difícil com dreno, com sonda, e mesmo o lado emocional deles, não tinha condições, aquele calor absurdo, absurdo, suavam, com temperatura altíssima ao ponto de eu chegar junto com os funcionários, pegar lençóis com álcool e água e colocar em cima dos pacientes, à noite eles sofriam, eles pediam, “ai, eu quero ar, eu quero ventilação, eu não tô aguentando de calor”, era desesperadora a situação dos pacientes, desesperadora? Não tive sucesso em pedidos de consertos, ao ponto de um dia eu ficar tão desesperada que pedi para a minha chefe para eu falar com a família dos pacientes para que eles trouxessem ventiladores para colocar do lado da cama porque aquilo não podia mais estar acontecendo, e ela ligou para a gerente Carla e falou que não. Eu falei, não, eu vou falar, não teve solução, ela não deixou realmente entrar os ventiladores, e eu esperei a família chegar umas 9 horas, que era hora da visita, e conversei um por um, que era visitante da Hope, que se podia por favor trazer um ventilador para deixar do lado da cama do paciente porque o sistema estava quebrado e que ia demorar um pouco para consertar e que se eles pudessem fazer isso seria bom para o paciente. E realmente, no outro dia todos eles trouxeram ventilador, para amenizar o problema....

Pergunta - E com remédios, havia problemas?

Resposta - Faltava remédio, os pacientes de UTI e no geral eles têm de seguir um horário de medicação, então, várias vezes faltava medicação. Faltava medicação para paciente controlado, faltava dipirona, chegou a faltar dipirona, e isso que eu estou falando consta em ata da diretoria executiva, foi feita uma ata e eu questionei tudo isso, no hospital tem a ata. Faltava até dipirona na unidade da farmácia, faltava antibiótico, faltava remédio para dor, Tramal, faltava medicação para fazer anestesia nos pacientes, por isso muitas cirurgias eram canceladas, faltava equipamento como soro, uma época faltou até seringa para fazer a medicação dos pacientes, por exemplo, uma prescrição que era para ser diluída em 10ml nós tínhamos que diluir em 3, com uma seringuinha de 3, ou senão desprezar um soro para fazer medicação, porque não tinha seringa, não tinha soro no hospital, e foi questionado isso, conversei na época com o gerente da farmácia e ele falou que tinha sim, só que estava no almoxarifado, mas realmente não tinha, não tinha mesmo, ao ponto de um dia eu ficar tão desesperada na Hope que um paciente fez cirurgia e não tinha Profenid para fazer no paciente, nem dipirona, que eu fui até o pronto-socorro para pedir para a enfermeira doar alguma medicação, eu sei que isso é errado, mas foi o desespero, para fazer no paciente, porque não é fácil, quem sabe, quem já sentiu dor, sabe que isso é horrível, é muito desumano.

Pergunta - Algum outro setor padecia dessa precariedade?

Resposta - O centro cirúrgico também tinha essa dificuldade de falta de atenção da diretoria do hospital, porque faltavam os equipamentos ao ponto de uma equipe pedir demissão, a equipe inteira pediu para sair do hospital, pediu a demissão e mandou uma carta se desligando do corpo clínico porque não tinha condições mais de operar um paciente com falta de equipamento e medicação. E eles pediam, reivindicavam e eles falavam sempre que iam consertar, que iam dar um jeito, e nada, a equipe saiu inteirinha.

Pergunta - Que equipe?

Resposta - Neurocirurgia, uma equipe assim muito competente, a equipe da neurocirurgia do Base, uma equipe, em todos os aspectos, tanto humano como profissional, para mim a melhor equipe que passou pela associação. Eles não concordaram com a falta de equipamento e a falta de atenção da diretoria ao ponto de, de uma hora para outra, eles pedirem demissão e mandar uma carta, saíram todos os membros da equipe, saíram todos.

Pergunta - E o clima entre os funcionários, era de muita revolta?

Resposta - Os funcionários ficavam revoltados, porque da mesma forma que eu via esse lado do funcionamento do hospital, os funcionários também participavam, e como eles sabiam que eu era membro do conselho e também era da Cipa, eles iam em mim. Me chamavam e falavam, está faltando medicação, faltando gase, faltando chumaço, faltava lençol para os pacientes, para arrumar as camas dos pacientes não tinha toalha para dar banho nos pacientes e eles enxugavam os pacientes com lençol do hospital, quando tinha visita no hospital os pacientes tinham que enxugar a mão, tinham que lavar a mão, procedimento de segurança para o paciente, não tinha o equipamento, não tinha papel para enxugar a mão, os funcionários tinham que dar uma fronha de lençol, e isso era muito chato para os funcionários, eles ficavam com vergonha de tomar essa atitude, de ter que dar uma fronha para a família enxugar a mão para ver o paciente.

Pergunta - Havia ameaças?

Resposta - Eles são revoltados com as perseguições também, porque se eles fossem reclamar de alguma situação a gerência de enfermagem ameaçava de mudar de unidade, de mudar de período, de mandar embora, era uma perseguição, então eles ficavam revoltados, então eles conversavam, eu fazia esse tipo de reunião com os funcionários no cartão de ponto, na hora da saída e de entrada, e eles vinham com essa reivindicação: “Ô, está um absurdo, não pode continuar assim, paciente está indo para o centro cirúrgico e voltando anestesiado, tem que tomar uma atitude”..., e eles tinham medo de falar e sofrer represália, e isso acontecia.

Pergunta - Você soube de casos de gente que foi demitida, perseguida?

Resposta - Ah, sim, teve uma reunião em 2008, na época seo Reinaldo Rocha, fui falar com ele que estava tendo bastante reclamação de funcionários, e como na época ele entrou como superintendente, os funcionários ficaram com esperança de que ele ia realmente fazer alguma coisa pelo hospital e pelos funcionários, e eu falei para ele que teria uma necessidade de conversar com os funcionários porque só eu falando, dava a impressão que eu realmente arrumo confusão, que eu era agitadora, que eu realmente era uma pessoa que eles classificavam de baixo nível, então eu falei: vamos fazer uma reunião com os funcionários, vamos fazer uma reunião lá na ortopedia, chama os funcionários que têm interesse em estar sendo questionado o seo Reinaldo Rocha e ele apresenta a solução. Foi feita essa reunião. Depois do horário do trabalho, os funcionários foram para a ortopedia e seo Reinaldo foi lá conversar com os funcionários. E ele falou: quem é que quer falar alguma coisa, que tem alguma reivindicação, reclamação do hospital? E os funcionários, confiando no seo Reinaldo, levantaram a mão e falaram. Todos esses funcionários que levantaram a mão, e reivindicaram, foram mandados embora, todos. Aí os outros ficaram com medo, todos eles, numa época, acho que eram 4 ou 5 funcionários, todos eles que fizeram reivindicação, um da farmácia, um da hemodiálise, um da enfermagem, limpeza e centro cirúrgico, foram todos mandados embora.

Pergunta - Uma espécie de armadilha?

Resposta - Exatamente, e eles só não me demitiram porque na época eu era sindicalista, eu era diretora de sindicato, só sobrou eu, o resto foi tudo mandado embora. Então, os funcionários ficaram com medo, se eu falar eu vou ser mandado embora. Então, nessa época do seo Reinaldo Rocha foi horrível, o clima era de medo, represália, perseguições...

Pergunta - E na parte médica, como funcionava o comando?

Resposta -/b> Então, o dr. Samuel Fortunato era o diretor-técnico, ele era um sargentão, e o hospital funcionava em volta dele. Ele era muito autoritário, praticamente os médicos faziam um roteiro que ele que decidia, quem é que ia trabalhar, quem não ia trabalhar. Por exemplo, o setor da UTI tem que ter médico 24 horas e muitas vezes nós trabalhávamos sem ter médico, eu mesmo cansei de trabalhar sem ter um médico na unidade, assumia os pacientes a enfermeira do setor e os funcionários, e isso não pode acontecer porque mesmo com a experiência que os funcionários têm, a enfermeira e os técnicos, tem atitudes que só um médico pode determinar, como entubar um paciente, fazer um procedimento de extubação (retirada dos tubos), um procedimento invasivo, é o médico que tem que decidir, e ele que tem que fazer.

Pergunta - O quê?

Resposta - Procedimento traqueostomia, para intubar o paciente, para ele estar avaliando os exames de oxigênio do paciente, por exemplo, pedir uma tomografia, ultrassom, procedimentos que o médico teria que estar avaliando para pedir é a enfermeira que fazia, mesmo não sendo ela, a enfermeira, ela tinha essa atitude de pedir, estar enviando o documento para os setores porque o médico não estava na unidade, e isso é muito grave porque muitos pacientes tiveram sequelas devido aos médicos não estarem na unidade na hora certa. A gente estar procurando, não está certo isso, aonde que está o médico da UTI? Ou senão você nem sabia quem estava de plantão na UTI, não sabia, quem está de plantão hoje? Outra falha grave, não tinha fisioterapia, os pacientes têm que ser extubados pela fisioterapeuta, o correto, e o hospital só tinha fisioterapia no período da manhã, sendo que as cirurgias cardíacas e neurocirurgias chegavam tudo no período da tarde, então, a necessidade é assim de 24 horas, mas a maior necessidade era à tarde, e quem extubava os pacientes era nós. que a gasometria estava correta, a enfermeira: vai dar para extubar? Vamos extubar, sem o médico estar perto...

Pergunta - Os pacientes te relatavam coisas estranhas que aconteciam lá dentro?

Resposta - Sim, os pacientes relatavam que alguns procedimentos eram cobrados separado. Eu estranhava, inclusive, no setor de ortopedia. Eram comentários não só de pacientes como de funcionários também, do centro cirúrgico e da ortopedia.

Pergunta - Pacientes de SUS, que não deveriam receber cobrança nenhuma...

Resposta - Pacientes de SUS que deveriam ter total cobertura dos procedimentos. Prótese de quadril e prótese de joelho, a maioria. Algumas fraturas expostas também, algumas fraturas expostas também que tem pinos importados eles cobravam e a família desconfiava que eles colocavam nacional, ou às vezes nem colocavam, falavam que colocavam mas não colocavam.

Pergunta - E a assepsia do hospital?

Resposta - A assepsia num hospital, na área da saúde, é essencial para evitar risco de contaminação e infecção hospitalar, só que na associação é complicado, porque faltava até sabão para lavar as mãos, então faltava tudo, faltava todo equipamento de assepsia, a gente tinha que usar o que tinha e geralmente nunca tinha nada, nunca tinha, muito difícil ter. Nós, da enfermagem, com medo de faltar, misturava a água com o sabonete para aumentar a quantidade para não faltar para lavar a mão à noite. Chegou ao ponto de funcionário trazer sabonete de casa para dar banho no paciente à noite, eles traziam xampu de casa, os funcionários, traziam xampu, traziam creme, sabonete e creme para passar nos pacientes que não tinha, nunca tinha. Então, lá na associação, há falta de medicamento, de material para assepsia dos equipamentos, quebrava também máquinas dentro do setor de material, tinha até denúncia de que os equipamentos não ficavam tempo suficiente na autoclave (máquina de esterilização), eles tiravam antes do tempo, para dar tempo de fazer outro procedimento para que as cirurgias não fossem canceladas, e isso é uma negligência, você colocar um equipamento que tem mais ou menos de ficar uma hora na autoclave e tirar com 30 minutos aquele equipamento não foi totalmente limpo, e isso acontecia sempre.

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