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Nova denúncia reitera falta de assepsia

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

A série de denúncias feitas ontem por uma ex-funcionária da Associação Hospitalar de Bauru (AHB) com exclusividade ao Jornal da Cidade revoltou a cidade e encorajou outros depoimentos sobre fatos graves ocorridos na rotina do hospital que podem ter comprometido a vida e a saúde de pacientes internados aos cuidados do Sistema Único de Saúde (SUS). A coragem da denunciante incentivou outra ex-funcionária a contar os momentos de tensão e "terrorismo" que sofreu ao não concordar com algumas regras impostas pela diretoria que está sendo investigada.

Os novos fatos se referem à falta de assepsia e peças de ‘enxovais’ (roupas usadas por pacientes e nas camas) e procedimentos duvidosos usados pela lavanderia que servia os três hospitais - de Base, Manoel de Abreu e Maternidade Santa Isabel. A enfermeira diz que sofreu e sofre perseguição por não ter feito parte da forma como tudo era gerido . “Estou desempregada e no Estado de São Paulo não consigo emprego na área de saúde.”

Antes de sair e por cinco anos, a ex-funcionária diz que sofreu todo tipo de pressão da diretoria e por isso entrou em depressão e ficou oito meses de licença. Quando retornou, tinha sido transferida de setor. “Eles não gostam de funcionários que questionam. Em uma ocasião queriam que eu assinasse atas de reuniões que nunca ocorreram. Nessas ocasiões eu era ameaçada de demissão.”

Mas foi na lavanderia e na ala do atendimento dos pacientes do SUS que a ex-funcionária assistiu às piores cenas que podem ter comprometido muitos tratamentos. A falta de medicamentos adequados e o risco de contaminação e o sumiço de documentos que comprovavam os fatos que ela denuncia pesam contra a administração de Joseph Saab.

“Eu entrei de licença e quando retornei os documentos que eu guardava haviam sumido. Eu gostaria de ser ouvida pelas autoridades que apuram as falcatruas para apontar o local exato onde foram escondidos vários prontuários de pacientes. Eu desconheço os motivos que levaram a diretoria a esconder esses documentos.”

A enfermeira conta que foi admitida para ser a responsável pela lavanderia em 2002. Por não ter conhecimentos profundos sobre o trabalho de lavagem de roupas hospitalares, ela fez um curso em São Paulo e várias pesquisas. Descobriu dentre outras coisas que as trocas de camas deveriam ser feitas em número diferente para pacientes da Hope (ala intermediária na Unidade de Terapia Intensiva). “Deveriam ser feitas seis trocas de lençol, segundo as normas. A intenção é evitar a contaminação porque esse paciente transpira e ainda apresenta secreções que podem gerar uma flora bacteriana. A bactéria precisa de local úmido e quente para se proliferar. Porém, as trocas não ocorriam nessa quantidade porque não havia ‘enxoval’ suficiente.”

De acordo com ela, a falta de roupas para pacientes, médicos, cama e de campo para cirurgias era gritante. “Eu comunicava com a diretoria através de relatórios, mas ninguém tomava providências. Chegamos a uma situação ridícula. Os médicos que usavam tamanho G acabavam indo para o centro cirúrgico com roupas de tamanho P. Alguns ficavam de barriga de fora. Tinha até avental rasgado.”

A necessidade de roupas era tão grande que nem mesmo o tempo de descanso do tecido era respeitado. “O tecido tem que descansar 48 horas após todo procedimento de lavagem. A rotatividade era tão grande que o descanso não ultrapassava 30 minutos, o que pode ter comprometido a assepsia das roupas. Houve caso em que a família levava a roupa para o paciente, para que ele pudesse tomar o banho matinal. A lavanderia não conseguia enviar as roupas antes das 13 horas a ala do SUS e muitos ficavam sem banho.”

O ex-presidente e o ex-superintendente da AHB Joseph Saab e Reinaldo Rocha não foram encontrados para falar sobre as denúncias.

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Peregrinação

Desde que começou a questionar os procedimentos adotados pela AHB, a enfermeira passou a ser encarada como pessoa não grata e, por inúmeras vezes, foi transferida de departamento. “Fiquei 120 dias afastada por conta da licença-maternidade, quando retornei não estava mais na lavandeira.”

A enfermeira passou a integrar a Comissão de Infecção Hospitalar (CCIH) para acompanhar os prontuários, ver se a medicação estava sendo administrada corretamente. “Porém, o que mais eu encontrava nos prontuários era um círculo com a palavra FF, que significava medicamento em falta na farmácia. Fiz seguidos relatórios e ninguém tomou providências.”

Nesse setor é que queriam obrigar a ex-funcionária a assinar atas de reuniões que nunca foram realizadas. “Não assinei e fui transferida para o 1o andar meio. Onde ficam os pacientes pós-cirúrgicos e aqueles que vão para a cirurgia, além de um quarto infantil. Minha função era servir de intermediária entre o paciente e o médico e novamente me deparei com a falta de medicamento.”

Ela não suportou e um dia ao ver uma criança sofrendo por falta de medicamento adequado chorou e reclamou. “Fui chamada pela Doraci e pela Iara que me colocaram na parede e me transferiram para fazer curativos. O dia que um médico elogiou meu serviço, elas me retornaram para o CCIH, onde me acomodei. Entrei em depressão e saí de licença. Regressei e sofri pressão para pedir a conta. Até que eles me mandaram embora.”

Desde a dispensa, a enfermeira enfrenta o desemprego. “Mandei currículo para vários hospitais da região e do Estado de São Paulo e não consegui um emprego até hoje. Não sou nem chamada para entrevista. Fui para o Mato Grosso, onde trabalhei. Retornei e a resposta que ouço é que o meu perfil não se encaixa na instituição de saúde, vou para a área de telemarketing.”

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