Articulistas

Fantasmas de vidro

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 2 min

Pagamos o preço pelo privilégio de pensar. Dotados da capacidade de refletir sobre seus atos e prever as respectivas consequências, os humanos possuem uma responsabilidade que nenhum outro ser, que vive ou passou por aqui, jamais possuiu. Como não temos nenhum contraponto nesta arena, mesmo sob os próprios códigos, os nossos compromissos com o mundo passam a ser construídos a partir de uma conflituosa relação entre o que somos e o que podemos ser. Com essa pesada herança, optamos, em geral, por dois caminhos: a alienação, que tira esse desconfortável fardo de nossas costas, mas, desaparece com o real sabor da vida; e a conscientização, que nos coloca no olho do furação deste mar inquieto e revolto. Em qual canoa devemos fincar os pés? O ruim não seria içarmos nossas velas existenciais numa delas.

O problema é quando arvoramos navegar na vanguarda da segunda, enquanto remamos prumando o atraso da primeira. Essa incoerência talvez seja uma das poucas razões capazes de explicar a nossa, previsível, incapacidade de deixar de reproduzir, em qualquer tempo, de qualquer forma e por qualquer pretexto, pelo menos, três tristes fatos ocorridos recentemente. Num deles, justamente num local onde a universalidade das idéias deveria reinar, a intolerância, sexista e falso moralista, se expressou na sua mais tosca tradução. Em outro, achei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto, alguém que sofreu os mais duros preconceitos pela ousadia de ser, cantar e amar, descredenciar conquistas, não importa de quem, apenas pelo jeito simples de falar. Por fim, a mais atrevida afronta em ver o pouco que resta dos precários recursos públicos da saúde, sendo roubado justamente por quem deveria, por juramento profissional e conduta moral do cargo, zelar, cuidar, preservar. O que esses três episódios têm em comum é a contradição entre a pretensa nobreza da origem e a tragédia dos atos por ela praticados.  A discriminação, a ignorância, a desonestidade destes casos são tão mais graves por isso.  

A exposição pública , dessas e tantas outras inconsistências humanas, aliada a uma caricata condenação, parece sepultá-las aos olhos do grande público. Mas, como fantasmas, voltam, talvez, para onde nunca saíram. Exorcizá-los é uma tarefa unicamente nossa. E a melhor das armas é a quase sempre negligenciada, porém absolutamente libertadora, responsabilidade que todos temos pela realidade que parimos.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista. lvbauru@gmail.com

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