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Irmãos vivem sem luz em São Paulo


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São Paulo - Mario Pioli, 82 anos, não se lembra da última Copa do Mundo que viu. Ele não tem TV, usa fogão a lenha para cozinhar a carne das galinhas que cria no quintal e, sem energia elétrica em casa, dorme às 20h. Tudo isso em São Paulo, Capital. “Mas soube do apagão, sim”, diz ele, morador de sítio em Marsilac (no extremo sul da cidade), que fica a 15 minutos a pé do vizinho mais próximo. “Aqui, para mim, não fez diferença nenhuma, mas escutei tudo pelo rádio (a pilha) quando perdi o sono”, conta, mostrando os lampiões de gás que ele e o irmão, Pedro, 67 anos, ambos solteiros, usam ao anoitecer.

Na casa, há uma lâmpada na cozinha movida a energia solar e chuveiro quente a gás. Mas só. “A energia elétrica faz muita falta, mas seria caro trazer os cabos até aqui.”

Ironia: aposentado há menos de uma década, Mario trabalhou com estudos de solo em obras de usinas hidrelétricas como a de Capivara, no oeste paulista. “Agora não tenho como ligar um liquidificador, uma furadeira. Mas o pior de tudo é a iluminação.”

Em área mais urbanizada de Marsilac, Maria Lúcia Cirillo, 53 anos, dona de uma venda e líder comunitária, paga por energia elétrica. Mas nem sempre leva. “Esse apagão de terça foi uma surpresa para os moradores”, diz, para em seguida emendar: “É que nunca vimos a luz voltar tão rápido, no começo da madrugada. Em geral, só no outro dia, ou dias depois”.

Na noite do apagão, sua maior preocupação foi o filho mais velho, de 27 anos, que vive em prédio da avenida Paulista. “Ele mora numa quitinete no 24º andar e ficou me ligando. Eu tinha rádio e fui contando as notícias para ele. Imagine ficar sem luz na Paulista!”

Outros moradores relatam que apagões são rotina em Marsilac e podem durar dias. “O tempo vai virando e todo mundo já se prepara”, diz Átikô Júrací Múxòxó, 69 anos. Feiticeiro profissional (com cartão de visitas), ele diz que prefere o rádio à TV, mas vê jogos do Vasco e telejornais. Não tem geladeira. Os animais que cria são preparados logo após o abate. Na casa, há maços de vela (também para o candomblé), fósforos, sempre no jeito. Na mochila de estampa camuflada, ao estilo Rambo, uma lanterna de prontidão.

Oficialmente, a AES Eletropaulo diz que “não há excesso de demanda” na região de Marsilac.

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