Política

‘Cada cemitério tem um rei’

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

A Emdurb começou a mapear as atividades de particulares nos cemitérios públicos no início do ano. Ao tentar realizar o cadastro logo na primeira etapa do trabalho, funcionários e chefes passaram a sofrer ameaças.

Depois disso, a direção da empresa municipal levantou as regras em outras cidades e começou a elaborar o regulamento publicado ontem no Diário Oficial. O assessor Jurídico da presidência da empresa, Palamede Consalter Júnior, descreve situações de ameaças de agressão e da necessidade de acionar a polícia para a execução dos trabalhos.

“Cada cemitério tem um rei e eles comandam os serviços lá dentro. Com o regulamento, em 30 dias só a Emdurb vai enterrar e somente quem cumprir as regras e tiver cadastro poderá ter autorização para alguns serviços monitorados. Essa receita é da Emdurb e hoje os cemitérios só dão prejuízo porque o empreiteiro tomou conta. Vamos enfrentar”, garantiu.

Os donos do espaço público não aparecem, a não ser que algum cidadão recuse pagar o que os particulares instalados em cada unidade pedem. Na primeira abordagem, realizada ontem em dois sepultamentos pela reportagem, o pedreiro impõe o custo e diz que não aceita que outro trabalhador entre no cemitério.

Sem coveiros

Os coveiros da Emdurb desaparecem e o administrador não enfrenta a situação pelo “costume de anos”. “Aqui quem faz o serviço sou eu e uma pessoa que reveza comigo”, disseram, no mesmo tom, dois pedreiros abordados pelo JC.

Eles confirmam que não são funcionários e que não deixam outros entrarem no local, tudo sob a proteção indireta de observadores que os acompanham o tempo todo. Quem insiste, pode ou ter de enfrentar a ameaça ou até do falecido não ser sepultado, em boicote.

Assessor, gerente e presidente da Emdurb, porém, estão preocupados. “Sabemos que vamos ter muita pressão. E tem gente que vem aqui e ameaça mesmo. Vamos contar com a ajuda da polícia para enfrentar isso. Eu levei ao promotor a situação e o que precisava ser feito. O prefeito entendeu e nós estamos fazendo, mas não será fácil”, confessou Rubito.

José Peres, gerente do setor, enfatiza que os números de serviços mostram a disparidade e o domínio dos atravessadores. “Em 2008 nós fizemos 300 funerais assistenciais, que são cobrados da prefeitura. Os serviços de terceiros somaram 1.422 no ano passado. Olha a diferença”, aponta.

Em locais como o São Benedito, a direção da Emdurb já apura indícios de que o domínio privado teria a “cobertura” de integrantes com antecedentes criminais. Uma fonte da Polícia Militar confirma que as partes sabem da existência de “rainhas e reis por trás dessa máfia”. Por esta razão, a empresa municipal vai solicitar a cobertura operacional da polícia para fazer valer as novas regras.

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