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Arruda não é flor que se cheire

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No século XVII a Europa padecia de uma grande peste que dizimava centenas de pessoas por semana. Ninguém conhecia a causa da doença e muito menos a cura. Grandes cruzes vermelhas eram pintadas nas paredes, para marcar as casas das pessoas atacadas pela praga. Alguns ladrões, porém, pareciam completamente imunes: entravam naquelas casas, roubavam os mortos e não adoeciam. Muito tempo depois se descobriu como esses ladrões se protegiam – com vinagre de arruda macerada que eles passavam pelo corpo. Apesar das propriedades medicinais conhecidas há séculos, o uso interno da arruda (ruta graveolens) não é recomendado. Pode causar vômitos e convulsões. Tem efeito abortivo, pode provocar fortes hemorragias.

As escravas colocavam galhinhos de arruda nas pregas dos turbantes, para se proteger contra as forças do mal. Já as mulheres da corte escondiam a arruda nos seios para dar sorte. Atualmente os políticos colocam a propina do Arruda na cueca e nas meias. Cofrinhos de mau-gosto. A atriz Grazi Massafera desfilou no RioFashion com um galho de arruda na calcinha, dizendo ela, para se proteger do mau-olhado. O governador do “Detrito” Federal José Roberto é exemplo de que Arruda não é flor que se cheire. Ele já havia sido senador poderoso no governo FHC. Mandava e desmandava no Senado. Em 2001 associou-se ao senador Antonio Carlos Magalhães para fraudar o painel do plenário no caso da votação secreta que cassou o senador Luiz Esteves. Apanhado, fez patético discurso negando tudo. Ninguém acreditou.Em lance de puro cálculo político voltou à tribuna, chorou, reconheceu sua participação na fraude. Pediu desculpas. Para não ser cassado tratou de renunciar, rapidinho. O povo do DF, ainda assim o elegeu governador. O “Vinagre dos Quatro Ladrões”, como era chamada a poção do século XVII, desta vez perdeu seus poderes. Arruda estava cotado para ser vice de Serra na eleição à presidência da República, com o apoio do DEM. Michel Temer, sondado para ser vice de Dilma Roussef, também está na lista do mensalinho de Brasília. As composições políticas terão que ser rearranjadas antes que o ano termine. As cenas exibidas pela televisão são chocantes, a despeito do presidente Lula haver dito que “imagem não diz tudo”. Lula não poderia dizer outra coisa porque tem em Arruda um aliado. O presidente não costuma deixar para trás nem mortos e nem feridos, mesmo que o cadáver esteja apodrecendo ou o ferido sangre em jorros pela jugular. Também o PT de Lula, ainda que não tenha sido flagrado pelas imagens, a não ser no caso Waldomiro, sofre a mesma acusação que agora acomete os Democratas: caixa 2 e pagamento a políticos. Lula, antes de absolver Arruda faz a defesa do PT, ou, se preferirem, de petistas acusados do mesmo crime.

No caso Arruda, as imagens valem por dez mil palavras – há gente enfiando dinheiro nos bolsos, nas meias, na cueca, na sacola, enfim, de todo o jeito. É triste. O político não se vê amoral. Para ele só sobrevive quem age com sagacidade e está apto a aceitar certas liberalidades e ilegalidades. É por isso que o deputado distrital Brunelli não se envergonha de rezar ao Senhor (dele, e não meu) para agradecer o dinheirinho extra e admitir não ser perfeito, porém merecedor da proteção divina para continuar trilhando o devasso mundo da política. Maquiavel tinha a receita para se manter na política: aprender a ser bom ou não, de acordo com a necessidade. O governador Arruda considera moral sua atitude, porque a intenção de aceitar o dinheiro escuso seria beneficiar os pobres com panetones.

A opinião de que a corrupção é própria da política se consolida no senso-comum. O problema é a figura do delator. De repente alguém próximo resolve se vingar e delatar a podridão. Foi assim com Nicéia Pitta, ex de Celso Pitta.Maria Cristina Mendes Caldeira, ex de Valdemar da Costa Neto, hoje PR. Mônica Veloso, mãe da filha fora do casamento de Renan Calheiros. Ainda não foi esquecida a tragédia rodrigueana da delação de Pedro Collor contra o irmão que supostamente teria seduzido a cunhada Tereza. Às vezes a delação acontece fora do círculo familiar. São motoristas, caseiros, secretárias. Esta situação de delação de pessoas próximas não foi prevista por Maquiavel. Principalmente entre subordinados. Naquele tempo o andar de baixo não era sequer ouvido. Hoje, o que fazem é desacreditar os delatores. Durval Barbosa, ex-secretário de Arruda, tem 30 denúncias nas costas. Ele mesmo era peça importante na engrenagem da máquina de corrupção montada no DFl.

Graças à delação premiada fez um “strike” na corrupta Capital Federal. Shakespeare, em Hamlet, refere-se à arruda como sendo “a erva dos domingos”, pelos poderes de exorcizar o mal. É desta arruda que o país precisa.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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