Para nossos ancestrais, o tempo era parte integrante da natureza, algo orgânico e subjetivo e não um parâmetro a ser medido com precisão geométrica. A partir do momento em que eles conseguiram eliminar as ameaças imediatas, conquistaram a liberdade de olhar para o futuro. Newton arrancou o tempo da natureza e deu-lhe uma existência. O tempo foi incluído na descrição do mundo como um meio de rastrear, matematicamente, o movimento.
Para Newton, existe um só tempo universal que tudo abarca, que não pode ser afetado por nada e que continua fluindo em uma marcha uniforme. Onde quer que você esteja, qualquer que seja o momento, seja lá como esteja se movendo e não importa o que esteja fazendo, o tempo simplesmente avança na mesma marcha para todo o mundo, marcando os momentos sucessivos das nossas vidas. Qualquer impressão de variação, na marcha do tempo de Newton, é tratada como um erro de percepção.
Na sequência, rompendo com o relógio perfeito de Newton, a segunda lei da Termodinâmica introduz uma seta no tempo do mundo, porque nos insere num processo irreversível descendente. Essa lei diz que, com o tempo, tudo tende a um estado de total desordem ou caos, tudo está fadado a uma queda unidirecional, a uma condição final de total degeneração. A “ruína” termodinâmica representou um rompimento significativo com o conceito newtoniano do tempo como um mecanismo de relógio. Nosso mundo passou a ser visto como uma gigantesca máquina térmica esgotando lentamente seu combustível ao longo do tempo.
Por uma estranha coincidência, justamente quando esta má notícia estava sendo assimilada, Charles Darwin, através da evolução biológica, também introduz uma seta no tempo da natureza, mas apontando na direção oposta à da segunda lei da Termodinâmica – a evolução parece ser um processo irreversível ascendente onde a ordem aumenta com o tempo.
Depois Einstein restituiu o tempo ao seu lugar de direito, no âmago da natureza. Segundo ele, a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma ilusão, ainda que obstinada. O tempo de Einstein não flui como o tempo de Newton, porque o tempo de Einstein não tem seta. Ele é cego à distinção entre passado, presente e futuro; ele é relativo, depende do movimento e da gravidade.
Mas, nesta história toda, três coisas se destacam. Primeira: nosso mundo passou por mudanças impressionantes nos últimos 150 anos. A fisiologia humana, ao contrário, levou milhões de anos para ser criada e não mudou muito nos últimos 150 mil anos. Nosso corpo, mesmo que esteja em perfeitas condições, foi projetado para ter sucesso no passado. Ele é uma máquina biológica antiga que evoluiu em resposta a um mundo que não existe mais; ele opera com frequência em hertz num mundo de giga-hertz.
Segunda: assim como os peixes podem não ter consciência da existência da água na qual nadam, a maioria de nós está alheia ao fluxo incessante do tempo no qual vivemos.
Terceira: na medida em que o tempo passa, fica mais clara nossa perspectiva sobre seu verdadeiro valor, como na economia, quanto mais escasso for um recurso, maior o seu valor. A maioria das coisas que podem ser possuídas consegue ser reposta, no entanto, não há nada que qualquer um de nós possa fazer para acrescentar um momento a mais no tempo e nada permitirá que possamos reaver o tempo mal empregado.
O tempo é importante porque nós somos finitos, porque, sem parar, o tempo sai aos poucos de nossos bolsos. Ele é importante porque é o meio no qual vivemos as nossas vidas e porque há oportunidades perdidas associados ao seu mau investimento.
As questões a respeito do tempo são, na verdade, questões sobre o sentido da vida e para respondê-las pode ser que você necessite de uma Bíblia, uma Torá, um Alcorão e um riacho tranquilo na montanha.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp - câmpus de Bauru