Sob o título acima, o leitor Ednaldo Calahani (a quem não conheço pessoalmente) expressa assim o seu pensamento, na página 2 do JC de 8/12/2009: “... Ficaria muito grato se esse honrado e imparcial Jornal da Cidade tivesse a hombridade de publicar a verdadeira história da mágoa de Pelé, desde o dia em que, logo depois do bicampeonato do Brasil no Chile, ele foi barrado na sede do Bauru Tênis Clube, pelo fato de ser negro...”
Peço a devida vênia ao prezado leitor para esclarecer que o Jornal da Cidade teve sim a hombridade de publicar um texto meu, intitulado: “Reminiscências”, que fala exatamente sobre o assunto da mágoa de Pelé em relação à cruel descriminação racial que sofreu na portaria de um renomado clube de Bauru. Para aqueles que não leram meu texto supracitado, lá está registrada a saga de dois meninos muito pobres,um branco e outro negro, que venceram cada um na sua profissão.
Para os que não leram em 30/6/2004 o meu texto, lá ficou registrado que Edson Arantes do Nascimento e Edson Fernandes dos Santos cresceram juntos, vivenciando ambos uma infância muito pobre. Edson Fernandes dos Santos tornou-se um conceituado médico e cirurgião militante em hospitais paulistanos. Edson Arantes do Nascimento ficou mundialmente conhecido como o rei Pelé. Anos mais tarde eles se reecontraram em Bauru. As azáfamas de suas vidas profissionais os separaram. Muito jovens ainda, resolveram ir até um clube local para participarem de um evento noturno, de gala. Foi quando Pelé, já bicampeão mundial de futebol, figura internacional, foi cruelmente barrado pelo porteiro do clube, que cumpria ordens superiores: ele era um negro e, portanto, estava impedido de adentrar nas dependências sociais do clube.
Minha esposa, Maria José dos Santos Vieira, era uma adolescente naquela época. Edson Fernandes dos Santos, o médico, era um primo dela. Ele chegou em casa muito triste. Contou aos parentes o lamentável fato. Minha esposa, coincidentemente, estava presente na reunião familiar. Hoje os tempos são outros. Há leis que punem o preconceito racial. Nos anos 60 não havia as ONGs. O racismo era apanágio da sociedade brasileira. Os humilhados não tinham direito algum, engoliam calados a arrogância dos racistas.
Quero enfatizar, no entanto, que o referido clube há muitos anos atrás abriu democraticamente suas portas para toda comunidade bauruense, não importando a cor da pele. Os mais jovens não sentiram todo um rastro ostensivo de ódio gratuito contra seres humanos, tão-somente porque nasceram com a epiderme fortemente impregnada de melanina. O preconceito, infelizmente, ainda persiste de forma latente no coração de muitas pessoas, que inclusive se proclamam cristãs e acreditam piamente praticar (????) a sua religião com esmero.
Gilberto Sidney Vieira