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Vida de muitos começos e poucos fins

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Quem nunca iniciou uma caminhada em busca de um determinado objetivo e desistiu no meio do caminho que atire a primeira pedra. Em maior ou menor grau, a verdade é que praticamente todo ser humano já passou por isso. Há quem inicie uma academia e desiste depois de alguns meses. Regime para emagrecer, então, nem se fala. Tem também quem jura de pé junto que vai parar de fumar ou beber, mas não consegue ficar mais do que alguns dias longe do vício. Cursos de inglês, espanhol, francês e de informática são outros exemplos comuns de projetos inacabados. E assim se segue em vários aspectos da vida: um livro interrompido, um blog ou orkut que se perdeu no espaço virtual por falta de atualização, uma reforma suspensa por tempo indefinido. Enfim, a vida é cheia de projetos por terminar.

Para o psicólogo Sandro Caramaschi, especialista em comportamento, as pessoas tendem a evitar o que consideram desagradáveis. Esta é uma das respostas possíveis para tantos começos e poucos fins. Outra explicação para isso, segundo ele, é a falta de autocontrole somada ao imediatismo que toma conta das gerações atuais. “As pessoas não estabelecem metas firmes e não seguem as regras que elas próprias estabelecem”, afirma.

A falta de autocontrole se explica, segundo o psicólogo, quando as pessoas se metem a fazer várias coisas ao mesmo tempo e não concluem nenhuma delas. São pessoas com perfil mais impulsivo, ou seja, que agem sem avaliar muito bem se terão condições de finalizar todos os projetos que abraçaram. Ao contrário, as mais organizadas tendem a definir metas e seguir com elas até o fim, segundo Caramaschi.

De acordo com ele, o imediatismo também atrapalha. O psicólogo lembra que algumas pessoas não têm paciência para esperar pela conclusão de algum projeto traçado por ele próprio. Elas se sentem seduzidas pelo prazer imediato e abandonam seus objetivos pelo caminho. Por isso, Caramaschi afirma que quanto mais longo for o tempo para se alcançar uma meta, maior é o risco do projeto ser abortado.

“Muitas vezes, o retorno é de longo prazo e as pessoas não conseguem esperar. Por exemplo, quando alguém se propõe a fazer um regime para emagrecer, ele quer, de fato, emagrecer, ficar mais bonito, mais elegante, mas para conseguir isso vai demorar meses enquanto comer uma bomba de chocolate vai lhe dar uma satisfação mais imediata”, relata.

Na opinião de Christian Barbosa, especialista em administração de tempo e produtividade, a razão para as desistências vem das mais diferentes origens. Segundo ele, muitos culpam a falta de tempo, a perda de interesse, a dificuldade de levar o projeto adiante, a mudança de planos ou o simples fato de desistirem. “Costumo ouvir as mais diversas desculpas para isso acontecer, mas, fundamentalmente, as pessoas se resumem a uma tríade de fatores: falta de relevância, falta de foco e auto-sabotagem”, aponta.

Se começamos algo que não é importante de fato, mais cedo ou mais tarde iremos desistir. Sem uma relevância, aos poucos, o projeto perderá completamente o sentido, segundo Barbosa. Depois de descobrir o quanto é relevante o que está se fazendo ou vai se fazer, vem a necessidade de focar.

O especialista também frisa que quem quer muitas coisas ao mesmo tempo acaba tendo dificuldades de executá-las. “Sem um foco definido, os resultados demoram a aparecer, você acaba se desmotivando e deixando mais um término para depois”, diz.

E por último, ele aponta a auto-sabotagem como um dos fatores mais comuns para impedir que projetos sejam concluídos. “Imagine que você tem uma meta ter R$ 1 milhão na sua conta em 20 anos. Mas, no meio do caminho, você começa a gastar mais do que deveria e nunca consegue se aproximar da quantia. Este é um exemplo de auto-sabotagem, que as pessoas fazem sem que muitas vezes nem percebam”, cita.

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Sonho

Desde criança, Maria Antonia de Souza Zeca sempre sonhou em ser uma arquiteta. Apesar disso, trilhou por outros caminhos, estabeleceu outras metas, outros projetos. No entanto, não chegou a concretizar suas escolhas. Ela fez licenciatura em matemática, mas nunca lecionou. Iniciou um curso de pintura, mas nunca pintou um quadro.

Foi então que ela decidiu fazer a faculdade de arquitetura. Quando se formou, o plano dela era ter um escritório onde pudesse projetar, administrar e construir obras. Um ano depois, o escritório já estava registrado e funcionando juridicamente. “Durante dez anos, fiz bons projetos de arquitetura, mas acabei encerrando com o escritório, pois não compensava. O que eu ganhava, mal dava para pagar os impostos”, observa.

Atualmente, Maria Antonia não atua mais na área da arquitetura. Ela preferiu estudar e se aperfeiçoar na área de design de interiores. “Como eu disse, ser arquiteta sempre foi meu sonho. Mesmo que desisto de alguns planos, não saio do meu foco. Tudo o que fiz e faço tem a ver com a arquitetura”, afirma.

Ela comenta que estabelecer projetos é uma prática comum em sua vida. “Estou sempre fazendo planos e os que deixo para trás é porque já me deram base para planejar novas conquistas”, diz.

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