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Chuvas deixam Defesa Civil em alerta

Por Fábio Zambeli | Da APJ, especial para o JC
| Tempo de leitura: 7 min

A previsão de chuvas intensas e calor acima da média no verão deixa em alerta máximo a Defesa Civil Estadual, que já intensificou os planos preventivos contra catástrofes naturais em sete regiões e manterá plantões ininterruptos até o Réveillon.

É o que revela o coordenador estadual, coronel Luiz Massao Kita, secretário-chefe da Casa Militar, em entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais (APJ).

Para ele, a concentração dos temporais, aliada à imprudência e à falta de informação dos moradores de áreas sujeitas a inundações e deslizamentos transformam a estação em período crítico, o que exige atenção redobrada dos agentes espalhados pelas 645 cidades paulistas.

“Este ano, por causa do El Niño, estamos com a preocupação redobrada. Nós tivemos várias reuniões com as coordenadorias municipais para que fiquem muito mais atentos. Na Operação Verão passada tivemos 24 óbitos em quatro meses. Este ano, estamos em 22 dias com 31 óbitos. É preciso redobrar cuidado com afogamento e escorregamento, principalmente. Este ano está chovendo muito mais e a estatística prova que temos que tomar mais cuidado, principalmente porque é muito mais concentrado”, diz o coronel Kita.

O secretário adverte para as medidas de precaução que devem ser adotadas no período de férias, analisa as dificuldades de mobilização da população em situações de risco e lembra que a meteorologia nem sempre consegue avisar com a antecedência necessária casos de tempestades localizadas.

“O que observo é que muitas mortes podem ser evitadas. É preciso respeitar e não desafiar a natureza. Primeiro, não morando em área de risco. Depois, chovendo muito, não saia de casa. Espera um pouco, deixe as águas baixarem. Não vá para regiões alagadas. Não tente atravessar com carro uma área de risco. Espere um pouco mais.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Associação Paulista de Jornais - Diante das previsões de um verão mais quente e mais úmido que o habitual, como a Defesa Civil está se preparando para a estação das chuvas?

Coronel Luiz Massao Kita - A parte preventiva nossa funciona da seguinte forma: a Operação Verão, que já começamos, visa justamente estes estragos causados pelas chuvas. A gente desenvolve um trabalho de 1 de dezembro até 31 de março. Só que em abril deste ano já estávamos percorrendo todas as 17 regiões administrativas aplicando cursos preventivos de Defesa Civil. Então, a gente vai em todo o Estado.

APJ - É permanente este trabalho?

Kita - A gente reúne e chama todos os municípios, cada cidade deve ter sua coordenadoria municipal. Permanecemos dois dias por região para explicar. Cada cidade deve ter uma Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec) constituída, ela deve ter seu plano municipal de Defesa Civil. E este plano deve ter um preventivo para que, quando aconteça um desastre, eles possam tirar as pessoas de áreas de risco, evitando a perda de vidas humanas.

APJ - Como é a interlocução com os municípios? Funciona de forma articulada?

Kita - Este ano fizemos 25 cursos preventivos e capacitamos mais de 2.000 pessoas. A gente considera como agentes multiplicadores.

APJ - É um número que o senhor considera bom?

Kita - Pode melhorar. Mas, infelizmente, a gente percebe que a cultura de Defesa Civil no Estado não é tão desenvolvida, principalmente no Interior.

APJ - A maior dificuldade no Interior é para mobilizar?

Kita - A gente consegue mobilizar melhor na Grande São Paulo e nos sete planos que a gente opera o sistema preventivo.

APJ - Quais as regiões mais críticas, que têm este plano preventivo?

Kita - Baixada Santista, regiões de Sorocaba, Campinas, Vale do Ribeira, Vale do Paraíba, Grande São Paulo e Capital. Eles funcionam na Operação Verão. Monitoram as principais áreas de riscos. Através de previsão meteorológica, vistorias de campo, leitura de pluviômetros. E até na retirada de pessoas das áreas de risco. Com o objetivo de preservar o patrimônio, do meio ambiente e de vidas humanas.

APJ - Como funciona operacionalmente o plano?

Kita - Não tem uma sede. São 114 cidades que estão incluídas neste plano. E o principal é escorregamento de terra.

APJ - A remoção de famílias de áreas de risco ainda é tarefa difícil?

Kita - Muito difícil, vide o caso do Jardim Pantanal, em São Paulo, onde as pessoas mesmo na iminência de uma tragédia, não querem sair. Por que? Eles temem que outras pessoas ocupem e levem seus pertences. Infelizmente, acabam não preservando o local. É uma resistência muito grande.

APJ - E as ferramentas para prever os temporais e comunicar com os agentes, são boas?

Kita - No Estado, temos uma empresa contratada. Sou coordenador da Defesa Civil estadual, responsável pelos 645 municípios. A gente tem aqui uma empresa contratada. Ela é responsável pela previsão e elabora cinco boletins para todos os municípios. A gente alerta todos os núcleos. E eles devem avisar todas as pessoas que vivem em áreas de risco.

APJ - Falta informação?

Kita - Falta informação e formação. Muitos casos de afogamento são de gente que está brincando com a enchente. Infelizmente, é falta de informação e de prevenção.

APJ - A Defesa Civil orienta as demais secretarias com as obras?

Kita - Trabalhamos em conjunto com as demais pastas do governo do Estado. Com a Secretaria de Saneamento e Energia, principalmente. Eles definem onde devem ser construídos piscinões, por exemplo. Quem articula tudo isso é a Defesa Civil do Estado.

APJ - Qual a estimativa mais recente de áreas de risco no Estado?

Kita - Áreas de risco temos mais 3.570 em todo o Estado. Não é possível precisar quantas pessoas vivem nestas áreas.

APJ - O que pode ser aprimorado no comportamento das pessoas?

Kita - O que observo é que muitas mortes podem ser evitadas. É preciso respeitar e não desafiar a natureza. Primeiro, não morando em área de risco. Depois, chovendo muito, não saia de casa. Espere um pouco, deixe as águas baixarem. Não vá para regiões alagadas. Não tente atravessar com carro uma área de risco. Espere um pouco mais.

APJ - E as crianças?

Kita - Primeiro, orientá-las a não brincar com água de chuva. No verão, na iminência de chuva forte, com raio, evitar ficar na água. Na praia, procurar local que não tenha quiosque, que atrai raio. Se estiver no carro, feche bem o vidro. Não permanecer em campo aberto. Não ficar em lavoura. Procurar lugar fechado, preferencialmente abrigo de concreto.

APJ - Para quem viaja para o litoral neste período de férias, há alguma recomendação?

Kita - Se tiver em área de inundação, deixe objetos de maior valor em área mais elevada, para não perdê-los. Se tiver documentação importante, deixar em saco plástico, bem guardado. Indo para outro local, evite sair durante e após as tempestades. Tomar cuidado com os raios. O Brasil é o país onde há o maior número de descargas elétricas no mundo.

APJ - Quando se faz uma previsão como a do Inpe, de mais chuvas e mais calor no verão, preocupa?

Kita - Ninguém vai deixar de sair de casa, de sair de férias porque vai chover mais. Realmente, vai chover mais, vai ter mais calor, vai ter mais chuva em pontos específicos. Quando chover, vai chover com mais intensidade em determinadas localidades, não vai chover distribuído. E, logicamente, se a pessoa ficar sabendo se vai ter chuva muito forte em determinada região, se puder evitar, melhor.Se não puder, não ficar em locais com área de risco de enchente e de escorregamento.

APJ - Será mantido o regime de plantão?

Kita - Trabalhamos 24 horas. Nossas equipes, até mesmo com geólogos, engenheiros e meteorologistas ficam o tempo todo de prontidão. Natal, Ano Novo, todos os feriados. E o importante é dizer que a Defesa Civil somos todos nós, autoridades, agentes e a população, que precisa nos ajudar fazendo a sua parte.

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