Na ausência de um acordo significativo para resolver o problema climático, continuaremos a queimar mais combustíveis fósseis ao longo deste século. Isto se aplica especialmente aos países em desenvolvimento que se industrializam com rapidez. Hoje eles são responsáveis por cerca de 40% das emissões globais de carbono, mas até o final deste século provavelmente atingirão os 75%.
As emissões do chamado primeiro mundo se tornam cada vez menos significativas à medida que as economias da China, da Índia e de outras nações em desenvolvimento crescem rapidamente. Embora a região setentrional da China, onde se cultiva a maior parte do trigo e da soja consumida no país, já enfrente uma enorme escassez de água doce, é improvável que ela (ou a Índia) aceite limitar suas emissões, basicamente por ter outras prioridades, como alimentar seu povo e melhorar sua condição de vida. Recentemente, Lu Xuedu, vice-diretor do Departamento de Assuntos Ambientais da China, declarou: “Você não pode dizer a quem está lutando para ganhar o suficiente para comer que é preciso reduzir as emissões de carbono”.
É bem verdade que nossas máquinas e equipamentos estão cada vez mais eficientes, no entanto, embora o motor do carro esteja mais eficiente, queremos um automóvel com ar-condicionado. Embora nossa máquina de lavar roupa consuma menos energia, compramos também uma lavadora de louça. Embora a produção continue a ganhar eficiência, produzimos cada vez mais, enfim, se o consumo cresce, crescem nossas emissões de carbono.
O grande entrave na redução de CO2 é o seu custo. Os combustíveis mais limpos são mais caros, portanto, custa uma enormidade substituir o carvão, que emite muito carbono, pelo gás que é menos poluente. A utilização de energias renováveis é ainda mais onerosa. O projeto Desertec, por exemplo, que poderia suprir 15% das necessidades européias de eletricidade, cobrindo uma vasta região de deserto no norte da África com painéis solares, enfrenta grandes obstáculos a sua concretização: o seu financiamento; a transmissão da energia gerada até os pontos de consumo e o fato de que cada megawatt obtido com carvão custa a metade do produzido por uma usina solar.
A Austrália, hoje o maior exportador mundial de carvão, já investe muito dinheiro e vai alocar ainda mais recursos em pesquisas visando a captura e a armazenagem do carbono: uma tecnologia não comprovada de extrair o dióxido de carbono da queima do carvão e enterrá-lo no subsolo.
Do Rio a Kyoto, de Copenhague ao México, todo mundo se mostra otimista na teoria e pessimista na prática. Enquanto isto a atmosfera da Terra continua sendo um sistema complexo até para os nossos melhores computadores; a incerteza sobre o clima é tanta que nem sabemos com total exatidão quais são os gases que, percentualmente, mais contribuem para o aquecimento. Chega-se a conclusão que a humanidade parece gostar desse flerte com o caos: não há como reduzir a densidade demográfica na velocidade adequada e nem nos despirmos de todos os confortos da civilização.
Talvez devamos apostar na teoria de James Lovelock que diz que a Terra ou Gaia se ajusta e se regula para compensar o aquecimento, como se fosse um ser vivo. Esse mecanismo poderia desde adensar nuvens até detonar um supervulcão para sombrear a Terra e produzir nova glaciação. Talvez devamos apostar na geoengenharia que especula injetar alguns gases na estratosfera para promover o esfriamento do planeta, recriando artificialmente o mecanismo proposto por Lovelock.
Resta a pergunta: será que temos ou teremos conhecimento suficiente para administrar nossa própria atmosfera? Um dia, esta será a única alternativa e é bom estarmos preparados.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp - câmpus de Bauru, e colaborador de Opinião