Auto Mercado

Dr. Automóvel: Defeitos em novos lançamentos

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Comprar o carro logo no lançamento de um modelo totalmente novo traz um pseudo status a alguns que querem se mostrar sendo os primeiros a desfilar com a novidade pelas ruas. Mas não sabem que também serão as cobaias para testes práticos de durabilidade, e bancando a festa do próprio bolso. Não se assustem, não é alarmismo. Acontece mesmo, cada vez menos é verdade, mas ainda acontece.

A engenharia da fábrica projeta um novo veículo, constrói inúmeros protótipos e os testa à exaustão antes de colocá-los no mercado. Apesar disso, sempre fica alguma coisa para trás, que passou despercebida e que só será descoberta futuramente, já nas mãos do futuro dono. Isto é normal e a garantia cobre tudo, mas é chato, pois só cobre as peças e mão de obra, não o constrangimento. Carrão bonito, modelo novo do ano seguinte, parado no acostamento...

Participei de projetos grandes em montadoras nos quais foram construídos dezenas de protótipos já de acordo com os futuros processos de fabricação, para que fossem representativos da produção. Todos foram intensamente testados segundo rigorosos procedimentos de testes de engenharia, e tudo que foi considerado como não-conformidade foi reprojetado e devidamente alterado. Após esta fase inicial de testes, foi feito outro lote de protótipos, agora chamados de pré-série, pois foram construídos na própria linha de montagem real. Sempre com o intuito de avaliar o projeto, o produto e sua manufatura, garantindo os mais elevados padrões de qualidade. Novos testes, ajustes finais e finalmente o produto está pronto para ser lançado no mercado. Mesmo assim, alguma coisa passa e o defeito acaba sendo descoberto no uso normal, já no mercado.

Isto é um caso típico de lançamentos radicalmente novos, e não mais em produtos que utilizam uma mesma plataforma ou semelhante, como é mais comum hoje em dia. Os chamados novos modelos modernos geralmente são baseados em alguma plataforma (nome dado ao conjunto motriz e chassis) de outros carros de produção, portanto já bem testadas e conhecidas do mercado. Se a fábrica lança um novo motor, um novo câmbio ou suspensões é mais provável que estes novos componentes possam vir a apresentar problemas do que os bons e velhos conhecidos conjuntos de produção. Vejamos o caso da VW, quando lançou o Passat. Foi uma mudança pra lá de radical, pois a fábrica produzia apenas veículos com motor boxer traseiro refrigerado a ar, com tração traseira e suspensões com barra de torção, com carroceria fixada sobre uma plataforma. Tinha muita experiência nesta tecnologia, mas passaria doravante a produzir veículos com motor em linha dianteiro refrigerado a água, com tração dianteira, suspensões com mola helicoidal e carroceria monobloco. Era muita mudança de uma vez só. Mesmo assim, seu lançamento teve pouco mistério, deu quase tudo certo, exceto o comando do câmbio que era muito impreciso. Era comum pensar que engatou a primeira e dar um pulinho para trás. A fábrica só detectou este problema pelas reclamações do mercado e pedidos de garantia, mas finalmente acabou substituindo a peça por outro projeto que se tornou um ícone de precisão, mas até lá se passaram quase dois anos...

A fábrica reserva-se o direito de alterar seus produtos a qualquer tempo, sem prévio aviso. E tem todo direito disso. O problema é lançar algo ruim no mercado e depois corrigir, sem assegurar a troca a todos os proprietários anteriores, deixando-os com micos nas mãos.

A nacionalização ou tropicalização de veículos já consagrados lá fora pode trazer problemas técnicos sérios. Um carro desenvolvido para o mercado europeu, com ótimas estradas e combustível de qualidade, por certo não agüentaria 30.000 km rodados em nossas estradas esburacadas. A alteração de sua suspensão para suportar o esforço extra demandaria um desenvolvimento muito complexo, pois implicaria na elevação da carroceria, em novos amortecedores, molas, batentes e estabilizadores, mas o simples fato de elevar a carroceria alteraria toda a dinâmica do veículo, com seu centro de gravidade e distribuição de pesos. Os projetistas devem levar em conta todos estes fatores em seu projeto.

A lógica do mercado atual exige que as montadoras acertem no projeto desde o início e lancem produtos perfeitos. O comprador não quer mais saber de ficar testando o produto às suas próprias expensas, mesmo que esteja coberto pela garantia.

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.

Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

Comentários

Comentários