Bairros

Duas horas de correria, sem tomar água

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Imagine passar duas horas ininterruptas correndo de lá para cá e não parar uma minuto sequer para tomar fôlego, comer ou tomar água. Esta é a rotina dos coletores de lixo em Bauru. Todos os dias, eles percorrem aproximadamente 35 quilômetros de distância em 235 bairros e na zona rural. Cada um carrega, em média, 3.500 quilos de dejetos ao longo de suas seis horas diárias de trabalho.

Para compreender melhor como funciona a rotina destes profissionais, a reportagem acompanhou uma equipe responsável pela coleta na Vila Falcão (zona oeste da cidade). Obviamente, fomos de carro. Se arriscássemos fazer o trajeto à pé, é provável que tombaríamos antes de completar primeira meia hora de apuração. Ou, talvez, teríamos sido vítimas de algum motorista incauto, como tantos que circulam pelas vias estreitas e esburacadas do bairro.

A jornada dos coletores começa no pátio do departamento de limpeza pública da Empresa de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), na Vila Antárctica, pouco antes das 18h. É um dos raros momentos em que temos a oportunidade de conversar mais a fundo com os profissionais que iremos seguir.

Cléo Vendramim tem 26 anos e atua no ramo há cerca de 3 anos. “Antes, eu era mototaxista, mas resolvi mudar de atividade. Esse emprego na coleta foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido”, afirma.

Um coletor em início de carreira recebe R$ 704,56 de salário, mais R$ 186,00 de insalubridade e R$ 200,00 de vale-compra. Essa renda foi um dos fatores que levaram o ex-lavrador Rogério da Silva Reis, 35 anos, a trocar o trabalho na lavoura pela coleta de lixo.

“O mais difícil na coleta é a correria. Nos dois primeiros dias de trabalho, cheguei a pensar em desistir. As pernas doíam demais. Depois, acabei me acostumando”, explica. O odor dos dejetos, que muitos poderiam enxergar como um ponto negativo da profissão, costuma ser facilmente superado pelos coletores e motoristas.

“No começo, a gente estranha o cheiro, mas depois se acostuma”, garante o motorista da equipe, José Antônio Pereira da Silva, 36 anos. Mais difícil de aceitar que o odor ruim do lixo é a forma desrespeitosa como parte da população trata os profissionais que atuam na coleta.

“Às vezes, o pessoal me chama de lixeiro. Não gosto muito. Se você pensar bem, verá que lixeiro é quem produz lixo. Nós apenas coletamos”, explica o também motorista Denilson César de Brito, 31 anos. “Cheiroso” é outra expressão que parte dos cidadãos bauruenses utiliza para se referir aos coletores de lixo.

Interessante é que essas gozações quase sempre partem dos adultos. Enquanto acompanhamos os coletores, notamos que as crianças têm grande consideração por esses profissionais. Muitas ficam paradas na calçada, acenando para os caminhões. Algumas chegam a estabelecer vínculos mais próximos com os coletores. “Oi, Cléo. Olha o meu nenê novo”, diz uma menina de aproximadamente 5 anos de idade, enquanto exibe uma boneca.

“Eu conheci essa menina trabalhando na coleta”, afirma Cléo. “Tem criança que não sossega enquanto não vê o caminhão de lixo passar”, garante Luiz Edgard Varella, 28 anos, outro integrante da equipe.

O fato de serem alvo de piadas das pessoas mais velhas não significa que os coletores não sejam estimados pelos adultos. Levantamento feito pelo site JCNET, entre os dias 5 e 7 de outubro de 2009, apontou que os coletores de lixo estão entre os três profissionais mais importantes para a sociedade.

Coletores de lixo receberam 16 votos no total, atrás de médico, com 84, e professor, com 78. Ficaram à frente de policial, bombeiro, engenheiro, pastor, cobrador, filósofo, mãe, dona de casa e jornalista.

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