Passaram-se mais de 25 anos desde que o relógio instalado no alto da Casa Luzitana parou de funcionar, mas ainda há quem sinta saudade da época em que ele orientava não somente os pedestres que passavam pela Praça Rui Barbosa e rua Batista de Carvalho como também todo o comércio da redondeza.
Na semana passada, um leitor anônimo, que se autodenomina O Arauto, disse que saiu da missa na Catedral do Divino Espírito Santo e passou diante do relógio. Segundo ele, após essa passagem, foi dominado por um sentimento de nostalgia ao ver os ponteiros na mesma posição de quando deu o último suspiro, em meados dos anos 1980.
Desde então, o relógio com as 12 letras da Casa Luzitana, que substituem os números, virou mera peça de decoração no alto do prédio, na esquina da Praça Rui Barbosa com a quadra 7 do Calçadão da Batista de Carvalho.
O empresário Eduardo Gebara também lembra com saudade da época em que o relógio funcionava perfeitamente. “Era uma referência para todos. Ele trabalhava direitinho. Era o nosso ‘Big Ben’”, lamenta.
Ary Nunes Garcia, 84 anos, proprietário do prédio, conta que o relógio personalizado foi feito a pedido do pai dele, o português Antônio Garcia, a um relojoeiro italiano, que morava em São Paulo. Ele conta que, na época, existia apenas o relógio da Noroeste do Brasil no Centro da cidade.
Isso se deu quando o pai dele transferiu a loja da rua Araújo Leite para a esquina da Praça Rui Barbosa com a rua Batista de Carvalho, que ainda não era Calçadão, ele permaneceu um tempo no prédio e, em 1935, mandou derrubar tudo para construir outro maior.
Assim que o novo prédio ficou pronto, o pai procurou o relojoeiro italiano e encomendou o relógio para colocar na parte externa da loja. Ary lembra que a instalação do equipamento foi um acontecimento para a época.
O aparelho funcionava à base de corda, igual aos antigos relógios de pulso e de bolso. Uma vez por semana, um funcionário da loja “alimentava” manualmente o aparelho para que as engrenagens continuassem funcionando perfeitamente.
O relógio tinha uma peculiaridade que chamava a atenção dos moradores e ajudava a orientar a vizinhança em relação a hora certa. Por exemplo, quando o relógio marcava 3h, emitia o som de três batidas. Quando marcava 4h, eram quatro batidas e assim por diante. E todas as horas e meia, como 1h30, 2h30, 3h30, etc, era uma batida.
Ary conta que grande parte das lojas que ficavam ao redor da Casa Luzitana se guiavam pelas badaladas do relógio para encerrar o expediente. Todas vez que soavam as seis batidas no fim da tarde, as portas do comércio começavam a descer.
Mesmo depois que a Casa Luzitana encerrou as atividades, em 1975, o relógio continuou funcionando, graças à disposição do mesmo funcionário de antes. Segundo Ary, por cerca de dez anos, esse funcionário ia todas as semanas para dar corda no aparelho.
Um dia, quando os ponteiros marcavam 3h22, não se sabe se da tarde ou da madrugada, o tempo parou definitivamente para o relógio da Casa Luzitana. Isso ocorreu por volta de 1985, devido a problemas técnicos. Desde então, só restaram lembranças e saudade para aqueles que, durante muito tempo, guiaram-se olhando para a parte alta do prédio ou ouvindo as badaladas que o aparelho emitia a cada meia hora.
“Até hoje, quando passo em frente e vejo o relógio parado, sinto saudade daqueles tempos”, diz Gebara, expressando o sentimento de muitos bauruenses que viveram aquela época e passaram por aquele pedaço da cidade.
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A maior da cidade
Numa época em que calote era uma palavra pouco usada, a Casa Luzitana reinava absoluta no Centro de Bauru. Ary Nunes Garcia, 84 anos, conta que a loja tinha cerca de 4 mil clientes de conta corrente, ou seja, que compravam com regularidade. Segundo ele, por muito tempo foi a maior loja de Bauru e uma das maiores do Interior do Estado.
Eram muitas portas que davam acesso aos clientes para os setores de eletrodomésticos, ferragens, tecidos, mercearia, etc. No auge, a loja chegou a ter três filiais, em Birigui, Lucélia e Dracena, que duraram pouco tempo.
Por ser filho único, Ary teve de deixar a promissora carreira de advogado formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) para dar continuidade aos negócios da família. Depois da morte do pai, Antônio Garcia, em 1967, ele administrou a loja por mais oito anos. Depois disso, decidiu se aposentar.
O prédio foi repartido em espaços menores, que foram sendo ocupados por empresas dos mais diferentes ramos, tanto no térreo quanto no piso superior. Da loja histórica, só sobrou a fachada, mesmo assim com cores diferentes e toldos que não faziam parte da arquitetura original.