Tribuna do Leitor

O vizinho não é uma figura distante


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O que aconteceu no Haiti, o país mais pobre e miserável de toda a América, me fez lembrar da relação que mantemos com alguns vizinhos. Ouvi muita lamentação quando o presidente Lula se mostrou favorável a novos acordos econômicos com a Bolívia, em relação ao gás que importamos deles, e ao Paraguai, com a energia elétrica, que de uma certa forma também o fazemos de Itaipu. Em ambos os casos, ficou claro o relacionamento amistoso e de verdadeiro amigo que o Brasil mantém com as duas nações vizinhas, quase parede-meia. O entender a situação do outro, ajudar no sentido de que eles cresçam e melhorem, é mais do que salutar, é imprescindível. Achei horroroso, naquela oportunidade, ler por aí que o Brasil deveria atuar de forma dura com ambos, como se fosse um déspota imperador. Agimos da forma mais acertada, e a história mostra isso. Crescemos como nação humanitária e distante da força bruta.

 Morei durante vários anos no núcleo Gasparini e vivenciei algo a me incomodar. Um dos vizinhos tinha uma casa caindo aos pedaços, nem luz e água estavam ligados. Uma pobreza que destoava dos demais, todos trabalhadores e com um mínimo de cuidado em suas edificações. Era impossível querer pintar a fachada de sua casa e não querer entender e ajudar o vizinho ao lado, em situação deplorável. Era o mínimo que todos poderiam fazer. Como trazer para sua casa o porta-malas do carro cheio de mantimentos e observar o outro, ali ao lado, quase sem nada para comer? Passado um certo tempo, com ajudas paliativas, nada foi alterado, mas com o emprego formal de alguns, tudo mudou de figura. Na casa já eram vistas mudanças, uma reação e todos vivemos mais felizes.

O Brasil não se mostra indiferente aos seus vizinhos, como nós não devemos ser com os nossos. Existem aqueles que preferem retirá-los do seu campo de visão, pois assim o problema será esquecido, outros não. Os que se incomodam, arregaçam as mangas da camisa e as barras das calças e se mostram desde o início preocupados, propiciando uma ação transformadora, esses são valorosos. O caso do Haiti é crônico e foi sendo construído ao longo dos anos, com ditaduras que dilapidaram todo o seu patrimônio físico e moral. Chegaram ao fundo do poço e poucos foram os que o ajudaram de fato. Um país onde 75% da população está desempregada é um sinal alarmante de que tudo está falido. A ajuda ao Haiti não deve se militar a mantimentos e ajuda humanitária de mão-de-obra especializada em catástrofes (também muito importantes). 

 Olhemos nosso vizinho com outros olhos, o da transformação, o da revitalização e o da reconstrução também social e política. Enquanto o país for dominado por gangues, no poder e nos núcleos populares, nada avançará. O Haiti precisa é de uma revolução social, onde o povo acompanhe novamente o atendimento mínimo de suas necessidades básicas, principalmente no respeito ao cidadão. Tragédias como a ocorrida lá são horrorosas e de nada valerão toda ajuda que vier, de todas as partes do mundo, se algo não for feito para mudar o ritmo atual da vida haitiana. Nada de interferência estrangeira sem controle, mas que surjam lideranças populares a assumir um papel transformador naquele país (incentivemos isso). Aí, sim, daríamos uma outra ajuda, mais palatável, para que o país se levante e dignifique o fato de ter sido o primeiro a se ver livre da escravidão em toda a América. Haitianos construíram uma bela história de lutas e resistência ao longo dos séculos e isso precisa ser retomado. Estar ao lado da luta por isso é algo que qualquer vizinho consciente poderia fazer.

Henrique Perazzi de Aquino

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