Foram 10 anos de tentativas frustradas, procuras por endereços e referências, até os filhos da aposentada Bertolina Almeida Barros, 86 anos, conseguissem reencontrá-la em Bauru. Na noite de ontem, três deles - Wilson Leite de Barros, 60 anos, Leonilce Leite de Barros, 56 anos, e Ivanice Leite de Barros, 50 anos - saíram de Lins e percorreram 100 quilômetros rumo à Bela Vista, onde novamente puderam receber os carinhos da mãe.
O encontro emocionou a todos e dona Bertolina disse que mal podia esperar para rever os outros dois filhos, Ivanilda e Anísio, para “satisfazer plenamente o coração”. Lúcida e falante, ela logo reconheceu a neta Cristiane Vasconcellos, 27 anos, a quem não via desde pequena, que também veio a Bauru.
“Ela nem sabe que já tem três bisnetos”, contou a filha Ivanice. Mas, como vive sozinha e com relativa independência, Bertolina diz que não pretende voltar para Lins, de onde saiu há exatos 27 anos.
De acordo com Ivanice, a mãe deixou a família em razão das constantes brigas com o marido, já falecido. Os filhos estavam crescidos e Bertolina, dona de um gênio forte, decidiu ganhar o mundo.
Já em Bauru, ela fez alguns contatos com os parentes, o último deles há cerca de 15 anos. Como mudava constantemente de residência, ninguém conseguia localizá-la. “Já mudei mais de 50 vezes”, confessa, às gargalhadas.
Ivanice conta que, certa vez, tomou um ônibus e veio até Bauru, sem saber exatamente onde a mãe estava morando, e decidiu procurá-la na igreja que costumava frequentar. “Fui meio sem esperança. Mas a sorte foi tão grande que eu entrei na igreja e ela estava lá. Depois disso, tentamos descobrir onde ela morava, mas ela não falava para a gente”, conta.
Embora sempre tenha se preocupado em preservar sua privacidade, principalmente em relação à vida afetiva após a separação do pai dos seus filhos, Bertolina acreditava que havia sido abandonada pela família e que o reencontro só não acontecia em razão da indisponibilidade dos parentes em Lins.
Contato
Mas foi em uma situação desagradável, quando teve de ser internada para tratar do diabetes, que a aposentada viu a chance da reaproximação. Depois de passar oito dias enferma e sem receber nenhuma visita, a unidade de saúde procurou o Centro Integrado de Atendimento à Vítima de Violência (Ciavi).
Pela iniciativa da assistente social Fernanda Santos Pires, toda a história se desenrolou. “Eu pedi a ela o nome dos filhos e perguntei onde eles estavam. Depois de conhecer o passado dela, entrei em contato com uma rádio de Lins e lá eles anunciaram a procura pelos parentes. No mesmo dia os familiares ligaram”, relata.
O anúncio na rádio foi feito na última quarta-feira e os filhos tentaram vir a Bauru no dia seguinte. Mas, por um capricho do destino, o carro quebrou ainda na saída de Lins. Ontem, no entanto, embora o tempo chuvoso não tenha colaborado muito, eles conseguiram retornar aos braços da mãe.
“Eu estou me sentindo alegre e feliz. Ainda quero encontrar meus outros dois filhos e também os (cinco) netos”, afirma Bertolina.
Depois da troca de abraços apertados e de atualizar as primeiras informações dos últimos 10 anos, mãe e filhos ainda têm muito o que conversar. Com os laços familiares reconstituídos, a ideia da família é convencer a aposentada a retornar para Lins. Dona Bertolina, a princípio, parece resistir.
“Eu vivo com Deus, faço tudo sozinha, lavo louça, limpo a casa, vou no mercado. Não posso deixar minha casa sozinha”, conta, com aparente propriedade, em frente à residência humilde pela qual paga aluguel. A esperança é que o afeto e a sensação de estar protegida e rodeada de pessoas que a amam seja capaz de, num futuro próximo, fazer mudá-la de opinião.