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Começou o tiroteio

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Pela amostra, a campanha eleitoral deste ano ficará no mesmo baixo nível das anteriores. O senador pernambucano Sérgio Guerra, presidente do PSDB, acusou a pré-candidata Dilma Rousseff de ter mentido quando disse que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) acabaria, com os tucanos no poder. Guerra iniciou a batalha com paus e pedras: “Dilma Rousseff mente. Mentiu no passado sobre seu currículo e mente hoje sobre seus adversários. Usa a mentira como método. Aposta na desinformação do povo e abusa da boa-fé do cidadão”. O PT chamou o senador de “jagunço” de José Serra e Lula emendou que ele é um “babaca”. Foi assim o clima da inauguração, terça-feira, de uma barragem no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do Brasil. Sob o pretexto de fiscalizar e de entregar obras Lula aproveita para pedir votos à candidata Dilma, fora de todos os prazos estabelecidos pela legislação eleitoral.

O que foi, sempre será. Na campanha de 2002 o “salto no escuro” era representado pela eleição de Lula. Agora, o receio de o povo perder as benesses do atual governo e as conquistas sócio-econômicas ameaça os tucanos. Em 2006 a “retórica do medo e da mentira”, prática de Dilma, segundo o PSDB teria arruinado a candidatura de Geraldo Alckmin à Presidência, apontado como futuro responsável pela privatização do Banco do Brasil e da Petrobras.

Os tucanos vão ficar numa saia-justa. Deverão jurar que o Bolsa Família continua e será ampliado, porque teve o seu nascedouro na gestão de FHC. O PAC será aperfeiçoado para que as obras de interesse do país prossigam, com maior velocidade e sem superfaturamento. Falar em continuidade dos programas de Lula é o mesmo que enaltecê-lo. Negá-los seria concordar com as ameaças de “retrocesso” com a eleição de Serra. De nada adiantará dizer que a pré-candidata à Presidência da República é a “terrorista” e “assaltante de banco” à espreita para a emboscar os eleitores.

Mais uma vez o Brasil perde a oportunidade de assistir a um debate esclarecedor, capaz de demonstrar o preparo de cada um para resolver problemas. A dívida interna do governo, próxima de um trilhão de reais e o déficit de 42 bilhões de reais da Previdência começam a coçar a orelha dos investidores estrangeiros. Os candidatos precisam demonstrar que vão saber lidar com a manutenção dos programas sociais sem implodir as contas públicas. Os juros sobem mesmo antes do aumento da taxa básica (Selic). São dados que ameaçam desestabilizar a economia e pôr a perder os avanços pós-marolinha. Há muitas outras questões de magnitude: o necessário avanço na qualidade do ensino básico para tirar o país da ignorância, causa principal da pobreza. O Sistema Único de Saúde tem custos elevados e baixa resolutividade. De nada adianta o agronegócio dar um show tecnológico e de produtividade se as estradas estão esburacadas e o os portos para escoar os produtos são caros e demorados.

A discussão de uma agenda deste porte seria um bom motivo para os eleitores se orgulharem daqueles que se dispõem a liderar os esforços para levar o Brasil até o nível das economias hegemônicas. A campanha transformada em evento bélico não nos levará a lugar nenhum. Enquanto isso, o Congresso continua paralisado. O objetivo do qual depende o país é o da votação dos marcos regulatórios do pré-sal. Das principais leis promulgadas por Lula este ano, uma “dispõe sobe ao exercício da profissão de Repentista” (Lei 12.198/2010) e a outra “institui o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento” (Lei 12.199/2010). Só espero que não redundem em mais dois feriados nacionais.

O ano eleitoral foi inaugurado com a anunciada terceira etapa do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). Aparentemente simplista, o decreto que Lula não leu provocou uma reação histérica e abriu uma crise militar com os pedidos de demissão do ministro da Defesa Nelson Jobim e dos comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica. Na caudal eleitoral o documento prevê uma Comissão Nacional da Verdade que vai apurar as violações de direitos humanos. Há dois mil e quinhentos anos os filósofos discutem o que é a verdade e ainda não chegaram a uma conclusão. Apesar resistência do ministro Paulo Vannuchi da Secretaria de Direitos Humanos, que costurou o apoio ao PNDH por 30ministérios e dezenas de organizações cívicas, a fraqueza política para a implementação do programa reside no fato de que nenhum governo pós-ditadura assumiu como tarefa central a reconstituição histórica do período de exceção e muito menos quis punir exemplarmente aqueles que conceberam e praticaram a tortura como política de estado. Se realmente quisesse fazê-lo, a exemplo do que já fizeram a Argentina de Videla e o Chile de Pinochet, o governo Lula deveria ter se empenhado desde o primeiro dia do primeiro mandato.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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