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Dr. Automóvel: Carros mexidos

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Falamos diversas vezes em carros alterados tanto mecânica quanto esteticamente, mas como o assunto sempre é levantado em conversas com aficionados, vamos voltar a ele.

O automóvel é projetado por engenheiros especializados e é severamente testado pela fábrica antes de ser colocado no mercado. Mas isto não impede que possamos alterá-lo, desde que com critérios técnicos e competência. Não me refiro apenas ao tuning, que é um modismo e serve mais para se mostrar aos outros do que para usufruir no dia a dia, mas fazer mudanças que visem mais potência no motor, maior desempenho ou mesmo conforto no uso diário.

Sempre me perguntam o que se pode fazer e o que não se pode, e minha resposta é sempre a mesma: pode tudo que não desrespeite as leis de trânsito nem as leis da Física.

A de trânsito é clara em estabelecer que um veículo automotor não possa ter suas características originais alteradas significativamente sem precisar de uma inspeção veicular completa e ser homologado. Permite que alguns parâmetros sejam ligeiramente modificados sem precisar de nova inspeção, levando em conta o bom senso de que dentro de uma mesma família de veículos podem coexistir diferentes motores ou molas de suspensão, dependendo do modelo ou aplicação. Em caso de dúvidas ou por precaução, recomendo que sempre se consulte a autoridade de trânsito local para se certificar da viabilidade de legalizar sua modificação.

Uma das coisas normais que dá para fazer sem problemas é otimizar o fluxo dos gases de admissão e escape no cabeçote, através de uma usinagem adequada ou de um polimento. Claro que o duto foi desenhado para obter determinado desempenho, mas os custos de produção seriada impedem que ele tenha um acabamento ideal, mas apenas aceitável. Portanto, nada impede que se aperfeiçoe e otimize o que já era bom. Só tem uma restrição, a usinagem precisa ser feita por um profissional que entenda do assunto e com equipamentos especializados. Com o polimento interno dos dutos, a mistura combustível ou apenas o ar de admissão fluem com mais facilidade e proporcionam uma queima melhor, gerando mais potência. Instalar um turbo também é possível, mas precisa tomar cuidado com as demais peças envolvidas como os pistões, por exemplo. Como o turbo aumenta tanto o volume quanto a pressão do ar injetado, fazendo a potência subir de 30 a 200%, a possibilidade de quebra aumenta proporcionalmente.

A troca de escapamento original por um esportivo pode aumentar a potência em 5% e é legal, desde que o barulho maior (que é para “mostrar” aos outros que o carro é mais potente) não ultrapasse o limite imposto em decibéis. Mas é completamente ilegal retirar o miolo do abafador e principalmente o catalisador, que serve para alterar quimicamente os gases de escape tornando-os menos nocivos na atmosfera. É sabido que o catalisador estrangula a saída dos gases reduzindo a potência, mas este inconveniente é amplamente superado pelos benefícios ecológicos que ele proporciona.

Alterar a suspensão cortando as molas é de uma burrice sem tamanho (aliás, é uma burrice dupla, de quem faz e de quem paga para outro fazer), pois além de proibida é extremamente perigosa. As molas foram projetadas para suportar uma carga específica e defletir (ou comprimir) até certo ponto sem comprometer o restante dos componentes da suspensão, como amortecedores, bandejas e tirantes. A mola tem os elos amassados em suas extremidades para formar uma base plana de assentamento ou encaixe. Cortar elos significa alterar toda a carga da mola e sua fixação na suspensão, que poderá ocasionar que ela não se prenda corretamente e pule fora durante uma curva, por exemplo. Se a intenção de rebaixar a altura da carroceria for a de obter maior estabilidade em curvas, o correto é trocar as molas por outras de mesma carga e com comprimento menor, mas nunca cortar simplesmente uma mola.

O rebaixamento só é válido para carros de competição, que utilizam pista lisa e própria para corridas, ao passo que no dia a dia temos valetas, lombadas, saídas de garagem e outros obstáculos diversos, que tornam a parte inferior do veículo mais vulnerável. Sem contar que com as molas cortadas, a suspensão fica mais dura e consequentemente os impactos serão mais fortes. Já percebeu esses carros rebaixados de rua que se vê por aí, como passam em valetas? De lado, quase parados senão raspa o assoalho. Então, servem para quê? Se são ilegais e perigosos, deveria haver uma fiscalização mais efetiva para retirá-los de circulação, não é?

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.

Seu site é www.marcoscamerini.com.br.

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