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Campanha questionadora

Frei Lourenço Maria Papin
| Tempo de leitura: 4 min

Ao encargo do Conic (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), foi lançada a CF-2010, de cunho ecumênico, aberta à participação de todas as Denominações Cristãs. Trata-se da terceira CF de natureza ecumênica. O Conic é constituído pela Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e Igreja Presbiteriana Unida.

Desde 1973 a Igreja vem abordando temas de natureza social, preocupada com o bem comum da sociedade. A CF-2010 terá como tema: “Fraternidade e Economia” e como lema as palavras de Cristo: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). Tema e lema foram escolhidos depois de muitas reuniões e pesquisas.

Objetivo geral dessa Campanha: “Colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas Cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão”.

Parafraseando as palavras críticas de Cristo aos fariseus (Mc 2, 27): “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”, poderíamos dizer que a economia existe para a pessoa e o bem comum da sociedade e não a pessoa para a economia. A economia deve estar a serviço da pessoa como meio para seu integral desenvolvimento. Somente a, fraternidade pode humanizar a economia. Sem fraternidade a economia é fria, não tem alma.

A CF-2010, sobretudo com seu lema, comporta um forte questionamento: o dinheiro não pode ser visto como valor absoluto dirigindo a vida, como critério absoluto das decisões das pessoas e dos governos.

A CF-2010 tem uma postura crítica diante do fenômeno da globalização, ou melhor, da globocolonização econômica neoliberal que é a concentração dos bens e riquezas nas mãos de uma minoria privilegiada, em detrimento do bem estar comum da maioria. É o neoliberalismo econômico como sistema político econômico que prioriza e absolutiza as frias leis do mercado em prejuízo das pessoas.

A CF-2010 vem lembrar que “é preciso denunciar todo sistema econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, a miséria e a fome... que é preciso educar para a prática de uma economia de solidariedade, de cuidado com a criação e valorização da vida como bem mais precioso”. O cartaz da Campanha (que podemos ver na mídia e colocado nas Igrejas e locais públicos) é um dos seus subsídios que vem nos ajudar a entender o essencial de sua mensagem.

O cartaz põe em destaque o lema: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Estamos diante de uma proposta desafiadora, ou seja, uma escolha entre os valores do plano de Deus e a rendição diante do dinheiro. Se dignificante é servir-se do dinheiro com retidão moral e ética, a ele não se apegando; aviltante é servir ao dinheiro, a ele se escravizando. Cabe bem aqui a tão conhecida afirmação de Cristo: “Onde está o teu tesouro aí estará também o teu coração”. (Mt 6, 21)

O fundo escuro do cartaz evoca a penumbra de um templo onde se vêem duas mãos em oração diante de uma vela acesa, feita não de cera mas de cintilantes moedas, mostrando o drama do ser humano que precisa dos bens materiais para viver, mas que pode também tornar-se escravo da ganância.

Essas mãos suplicantes estão dirigindo uma prece a Deus ou ao dinheiro como se fosse Deus? É a luz de Deus que ilumina as pessoas ou é o cintilar do ouro que as atrai? Aí vem chegando a CF-2010 sensibilizando a sociedade para a importância de valorizar as pessoas que a constituem; motivando-nos a buscar a superação do consumismo que faz com que o “ter” seja mais importante do que as pessoas; convidando-nos à prática da justiça e da partilha como dimensão constitutiva do anúncio do Evangelho; advertindo que o dinheiro e os bens materiais, ainda que necessários, por si mesmos jamais vão trazer a felicidade ou a plena realização da pessoa humana e que a economia somente trará o bem estar para a sociedade se estiver revestida de fraternidade, de muita fraternidade.

O autor, Frei Lourenço Maria Papin, OP, é colaborador de Opinião

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