Alguns teimam em mentir para só próprios. Escondem com vergonha um passado obscuro onde denunciaram companheiros de trabalho ou torturaram em nome da democracia que eles queriam. Democracia de fachada, onde apoiavam ostensivamente os militares golpistas de 1º de Abril de 1964, na esperança, muitas vezes vã, de que caíssem algumas migalhas das mesas dos detentores do poder. Em nossa Bauru, nos primórdios do Golpe Militar, fizeram uma denúncia caricata contra o psicólogo da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, professor Romeu Cajueira de Freitas.
Denunciaram e a denúncia está disponível no Arquivo Histórico de São Paulo de que na realidade Romeu era carpinteiro no nordeste e estava em Bauru “fantasiado” de psicólogo, a mando de Francisco Julião e Miguel Arraes, com a finalidade única de doutrinar os ferroviários da NOB, “levando-os a professar o credo vermelho”. A repressão e a Frente Anticomunista, acreditaram e Romeu foi preso, permanecendo encarcerado por mais de dois meses, na cadeia pública local. E, o pior, baseado na tacanha denúncia, acabou demitido de seu emprego com fundamentação no ato institucional de 9 de Abril de1964, sem nunca ter tido participação sindical ou política.
Hoje, descendentes de Romeu buscam a sua declaração de anistia, sem vantagens pecuniárias, junto ao Ministério da Justiça. E qual o motivo de não quererem vantagens pecuniárias?
Com a declaração de anistia e com a documentação localizada no Arquivo Histórico de São Paulo, pretendem adentrar com ação de reparação de danos morais contra o Estado e contra o delator. Podem até não ganhar a demanda e, entretanto, terão o prazer de ver aquele que tentou destruir a vida de Romeu tendo que justificar para parentes, amigos e para a sociedade as razões que o levaram a gesto tão ignominioso. Desta forma, estarão reparando a injustiça cometida contra o alagoano Romeu e punindo o seu detrator. Aguardamos com ansiedade.
Antonio Pedroso Junior