Quem “inventou” o Carnaval foi a Igreja Católica, por mais estranho e irônico que possa parecer. No ano 604, o papa Gregório I deliberou que, num determinado período do ano, os fiéis deveriam deixar de lado a vida cotidiana para cumprir 40 dias de jejum. Era uma forma de lembrar os quarenta dias de jejum e provações passadas por Jesus no deserto antes de iniciar o seu ministério apostólico. Durante a quaresma, quem quisesse garantir o seu lugar no céu deveria esquecer os prazeres da vida material e dedicar-se a elevar seu espírito a Deus. A meditar sobre Cristo e sua ressurreição. Ou seja, nada de festas, brincadeiras, namoros, bebedeiras ou comilanças nesses quarenta dias.
Com o passar do tempo, o sentido utilitarista do povo estabeleceu o costume de realizar muitas festas nos dias imediatamente anteriores a esse longo período de abstinência. A atitude mais humana em relação a todo esse rigor foi a de se esbaldar o mais possível até a hora da privação chegar. Esse período anterior à penúria começou a ser chamado de “adeus à carne”, ou dias da “carne vale”, em italiano. Hoje pouca gente segue os rigores da Quaresma, a não ser quando se trata de aproveitar o preço mais baixo do bacalhau, favorecido pelo câmbio. Qualquer dia é propício para a esbórnia e as baladas de segunda a domingo. O Carnaval brasileiro deixou o corso de rua com confete e serpentina e profissionalizou-se a ponto de se tornar um espetáculo televisivo concentrado nos grandes pólos: Rio, Salvador, São Paulo e Recife. Desde menino ouço dizer que Carnaval bom era o de antigamente. Ainda há os que se lamentam da proibição do lança-perfume, éter comprimido em bisnagas de alumínio ou vidro. Quem tinha uma Rodouro metálico era considerado rico. Aspirar o líquido volátil e perfumado provocava um zumbido nos ouvidos, uma sensação agradável de torpor. Para os mais tímidos o lança-perfume servia para libertá-los das amarras da introspecção e enchê-los de coragem para finalmente abordar a garota paquerada durante o ano todo. Injetar aquele líquido gelado nas costas e nas pernas das garotas que se arrepiavam, mas sentiam-se homenageadas, era o ápice do charme. As mulheres se tornavam proparoxítonas: sensualíssimas, lindíssimas. Em 1961 o presidente Jânio Quadros, no seu curto período de governo antes de renunciar teve tempo de proibir o lança-perfume e concursos de “miss” com maiô. Foi a sua contribuição à pátria antes de abandoná-la ao caos que deu causa à ditadura.
Vejo o esforço do Pedrinho Romualdo e do prefeito Rodrigo Agostinho de reavivar o Carnaval de Rua de Bauru. Foi muito bom em outros tempos, com Célio Gonçalves, Sampainho e José Cabral que inventaram as arquibancadas na Av. Nações Unidas. Torço para que consigam reavivar essa festa do povo, interrompida quando caminhava para uma profissionalização. Suspensa não pela fala de entusiasmo dos sambistas, mas pela crônica falta de recursos da Prefeitura. Pobres e ricos se confraternizavam nos desfiles e na criatividade das fantasias. Tivemos grandes carnavalescos como o Horácio e o Paulinho Keller. Dos “sonhos sonhados” nasciam carros alegóricos cada vez mais ricos e esteticamente planejados com engenhos de mobilidade. Apurações na Câmara Municipal eram aguardadas com ansiedade. Muitos protestos, logo abafados pelo ruído dos vencedores. E mais carnaval para festejar o resultado. Agora, “tudo acabado, e nada mais...”
Perguntava o velho Manuel Bandeira (“Variações sobre o Passado”) : “Vale a pena lamentar? Acho que não (...) Quem não estiver contente com o presente, viva, como eu, das saudades do passado”. Na minha surrada fantasia de pseudo-intelectual vou assumir meu lugar no bloco “Ler é o melhor remédio”. Desfilo nele todos os anos, em qualquer sala que não tenha televisão ligada. “Não me leve a mal, hoje é carnaval.”
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC