Porto Príncipe - O presidente Lula defendeu o perdão da dívida externa do Haiti, estimada em US$ 1,3 bilhão, para que o país consiga abrir novos créditos junto às instituições financeiras internacionais e investir na reconstrução da nação.
A proposta foi apresentada e aprovada por unanimidade, segundo Lula, durante a reunião da Cúpula das Américas e do Caribe, realizada no México, da qual Lula e o presidente do Haiti, René Préval, participaram na última segunda-feira. “Nunca vi tantos países dispostos a ajudar uma nação atingida por uma catástrofe natural. Poucas vezes vi uma disposição tão grande para a solidariedade”, disse Lula.
Os dois presidentes voltaram a se encontrar ontem em Porto Príncipe, Capital do Haiti e cidade mais atingida pelo terremoto de 12 de janeiro, que já matou mais de 200 mil pessoas, nas contas do governo haitiano.
Depois de visitar Cuba, Lula desembarcou com sua comitiva em solo haitiano às 11h26 (13h26 horário de Brasília) no Aeroporto Internacional de Porto Príncipe, controlado pelas tropas militares norte-americanas desde o desastre. Participam da comitiva o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias.
Após assistir as honras militares e à apresentação da banda nacional do Haiti, Lula e Préval sobrevoaram as áreas mais atingidas pelo terremoto na Capital, a bordo de um helicóptero da Marinha do Brasil. “Uma coisa é a gente ver as imagens pela TV e pelas fotos no jornal. Outra é vir aqui e ver pessoalmente. Eu tive que vir para saber o que o povo haitiano está sofrendo”, afirmou Lula.
O helicóptero da Marinha pousou na base brasileira da Minustah, no Campo Charlie, onde os presidentes conversaram e assinaram acordos de cooperação entre os dois países. Eles também participaram da formatura da tropa da base brasileira, que assumiu no final de janeiro após os desastres, e almoçaram juntos.
Entre os atos de cooperação firmados entre Brasil e Haiti, estão acordos para construção de cisternas para captação da água de chuva e distribuição coletiva (por comunidades de até 50 famílias), investimentos em programas de agricultura familiar e segurança alimentar. “Vamos trazer para o Haiti a experiência do Brasil em combater a fome. Eles precisam de apoio para incentivar a agricultura familiar e estimular a venda de alimentos para o próprio país”, disse Patrus Ananias.
Segundo Préval, a prioridade do país é retirar os escombros e levantar acampamentos para os desabrigados. Há muito entulho e gente vivendo pelas ruas, ainda sem assistências dos órgãos de ajuda humanitária.
Ao contrário de grandes acampamentos, Préval informou que o governo preferirá construir áreas menores para abrigar até 80 famílias e evitar que as pessoas tenham que deixar os bairros onde moram. Ele pediu a ajuda do Brasil para criar estes espaços de acampamento em Porto Príncipe. Lula prometeu enviar máquinas, equipamentos e técnicos para trabalhar na retirada dos entulhos e na construção dos acampamentos.
Educação
Além dos projetos nas áreas de alimentação e agricultura, Lula e René Préval, presidente do Haiti, assinaram ontem atos para a cooperação na área da educação. A meta é ajudar o Haiti a reconstruir as faculdades destruídas pelo terremoto. O Brasil também vai investir na modernização do centro piloto de formação profissional Brasil-Haiti, construído em Porto Príncipe.
Lula confirmou para Préval que o Brasil vai doar mais US$ 100 milhões para incorporar no orçamento do Haiti, dando liberdade ao governo de decidir a melhor maneira de investir o recurso.
No encontro que teve com Préval, Lula fez questão de ressaltar a necessidade de fortalecer o governo haitiano e as instituições do país. Ele deixou claro que a ajuda internacional não pode querer “dizer ao governo do Haiti o que deve ser feito com os recursos”.
Um dos projetos que receberá ajuda financeira e técnica brasileira é da construção de uma hidrelétrica, cujo projeto é do Exército Brasileiro, para garantir o fornecimento de energia para projetos de irrigação na agricultura e para instalação de indústrias.
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Situação caótica
A situação do Haiti é caótica. Parte da cidade ainda está sob escombros e toneladas de entulhos aglomeram-se pelas ruas, principalmente na região entre o centro e Petion Ville, onde fica a Embaixada do Brasil no Haiti.
Milhares de pessoas dormem ao relento e em barracas improvisadas. Passam fome, não tem nenhum tipo de trabalho e vagam pelas ruas tentando sobreviver.
De acordo com o governo haitiano, mais de 200 mil pessoas morreram soterradas pelo terremoto de 12 de janeiro, cujos efeitos são sentidos até agora. Os tremores fizeram com que cerca de 400 mil pessoas deixassem Porto Príncipe. A maior parte dos habitantes fugiu para cidades do Interior do país, na casa de parentes e amigos, e outra parte partiu para o exterior.
Ainda hoje é possível ver aviões lotados de haitianos deixando o Aeroporto Internacional de Porto Príncipe com destino a outros países. Os destinos preferidos pelos haitianos são Miami e República Dominicana.
Segundo o embaixador do Haiti no Brasil, Idalbert Pierre-Jean, que visitou o país ontem pela primeira vez desde o terremoto, a proposta do governo é tentar incentivar que perto de 700 mil pessoas topem migrar para cidades do Interior, minimizando, assim, os problemas sociais da Capital.
A ideia, segundo ele, é descentralizar a capital e enviar ministérios e outras instituições para cidades-satélites, ao redor de Porto Príncipe. Dos 15 prédios de Ministérios na cidade, 13 foram destruídos pelo terremoto. Matando milhares de funcionários.
“O Haiti enfrenta uma condição terrível depois do terremoto. Meu país é pobre e já sofria sem a catástrofe. Vamos pensar na proposta de descentralizar o governo federal para evitar que outras catástrofes naturais nos deixem sem governo”, disse Pierre-Jean.