Embora nem sempre seja compreendida assim, a vida é o equilíbrio entre transformação e resistência à transformação. Nosso corpo sente a vida porque a mente que existe dentro de nossos corpos, impele a matéria o tempo todo e esse ímpeto permite à vida continuar como é ou mudar. Nada na estatística descreve esse comportamento melhor do que a curva em forma de sino, a distribuição de espectro Gaussiano ou a curva de Gauss. A maioria de nós vive confortavelmente aninhada no ponto mais alto da abóbada da curva, perto ou praticamente em cima do ponto central, pois, a maioria se vê como pessoas normais ou médias.
Quando vamos para uma das extremidades da curva - onde poucos vivem - encontramos os extremistas; aqueles cuja opinião difere drasticamente do padrão. Por exemplo, se na ponta direita da curva temos quem quer mais liberdade do que nós e que sofre por sentir sua liberdade tolhida, na ponta esquerda encontramos os de opinião oposta - os que acham que temos liberdade demais e se sentem incomodados quando exibimos um comportamento que não seria tolerado por eles.
A metáfora direita versus esquerda sempre traz um colorido à conversa: rotulamos aqueles com quem não concordamos porque tememos que sua opinião viole a nossa. Assim, se estamos no meio da curva tememos que o desejo de extremistas por mais ou menos liberdade, ao se concretizar, nos force a ter mais ou menos liberdade do que aquela que julgamos confortável.
Li recentemente interessante artigo intitulado “the hedonistic neuron” de Harry Klopt do Laboratório de Aviônica (Ohio - USA). Nele o autor demonstra que somos feitos de neurônios autocomplacentes e que estes minúsculos caçadores de prazer são responsáveis pela memória, pelo aprendizado e pela inteligência. Klopt estabelece duas condições diferentes para o sistema nervoso humano: homeostase e heterostase.
A homeostase diz respeito a uma condição em que o sistema busca reforçar ou manter um comportamento estável ou “médio”. Este comportamento pode ser bastante consistente com a sobrevivência da pessoa. A heterostase é definida como sendo a busca pela condição máxima, pelo estar acima da multidão, por assim dizer. A homeostase nos faz ficar em casa assistindo TV, enquanto a heterostase nos estimula a nos tornarmos astros da TV. A heterostase abomina as massas e nos força para uma das extremidades da curva.
Nosso pensamento acaba sofrendo a influência dessa dicotomia: se nossa expectativa é de sentar no topo da curva, perto da média, os sonhos e as esperanças, por sua vez, são eventos da heterostase: o desejo de alçar vôo. Sonhar permite-nos definir um objetivo; a ação permite-nos aproximarmos dele ou, por vezes, até mesmo alcançá-lo. Segundo as circunstâncias, pode ser necessário privilegiar uma ou outra dessas atitudes, mas não é possível dispensar, de uma forma duradoura, nenhuma delas. Quanto maior for a necessidade de agir, maior deverá ser nosso esforço para refletir. Quanto maior for a nossa frustração pelo conforto do sonho, maior deverá ser nosso empenho em partir para a ação.
Existe uma essência imutável e básica. Eu posso estar feliz ou triste, pensativo, nervoso, sozinho ou não, com qualquer ânimo e em qualquer sociedade, o básico nunca muda. Quando uma semente de trigo se decompõe, perde sua forma, mas, um novo ramo de trigo irá emergir daquela semente. Isto é assim porque a base não se alterou; a essência permanece a mesma. Mas, a maneira pela qual a semente de trigo se desenvolve, consequentemente, sua aparência pode mudar como resultado das influências ambientais: incidência da luz do sol, tipo de solo, quantidade de fertilizantes, umidade e chuva. Assim, embora o trigo permaneça trigo, sua “embalagem” ou os atributos de sua essência podem ser modificados através dos elementos externos.
Nós constantemente mudamos nosso ambiente e somos afetados por ele: fazemos novos amigos, frequentamos novos cursos, então, para controlarmos nossa posição na curva da vida devemos aprender a verificar a característica das pessoas com as quais temos convivência. Não é o ambiente que cria novos traços em nós; apenas acontece que estar no meio de determinado tipo de gente encoraja certos aspectos de nossa natureza a tornarem-se mais ativos do que eram antes. Com mudanças no ambiente externo mudamos os atributos de nossa essência e, consequentemente, nosso destino. É aí que temos liberdade de escolha.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp - câmpus de Bauru, e colaborador de Opinião