São Paulo - A polícia continuava, até ontem, tentando localizar o universitário Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, 24 anos, apontado por testemunhas como autor do assassinato do cartunista Glauco e do filho dele Raoni. Todos os endereços conhecidos do estudante haviam sido visitados por investigadores, mas ele não foi encontrado. Com o fim do prazo do flagrante, a prisão temporária por 30 dias do acusado deve ser pedida à Justiça.
O pai e o avô do estudante, principal suspeito das mortes, disseram à polícia considerá-lo uma “pessoa problemática”, mas não que achavam que fosse capaz de matar alguém. Os dois foram ouvidos pela Polícia Civil. Afirmaram que o jovem era “perturbado”, que já teve acompanhamento “psicológico” e que usava drogas, segundo relato feito pelo delegado Archimedes Cassão Veras Junior, que investiga os crimes.
Filho de pais separados, contaram a família do estudante (segundo o delegado), Carlos Eduardo, conhecido como Cadu, não dava satisfação do que fazia, um dos motivos que o teria levado a morar na casa dos avós paternos com o irmão.
De acordo com Veras, ambos afirmaram ter tomado conhecimento do crime pela imprensa. Em entrevista, o irmão do suspeito, Carlos Augusto, afirmou que não acreditava na versão da polícia e da família da cartunista. Para Veras, não há dúvida, no entanto, que foi Cadu o autor dos disparos que mataram pai e filho. Para ele, o foco do trabalho policial é prendê-lo para poder esclarecer detalhes.
No dia do crime, havia dúvida se um ou dois homens acompanhavam Cadu - para a polícia, agora é quase certo que havia só um. A polícia também descarta a possibilidade de ter ocorrido um latrocínio (roubo seguido de morte). “O homicídio doloso (com intenção de matar) já ocorreu. Ele vai responder (por esse crime). As outras circunstâncias só vão dosar aquilo que será encaminhado para o juiz”, disse.
Para a polícia, segundo as testemunhas ouvidas, a versão mais provável para o crime até agora é que Cadu entrou na casa de Glauco após render uma enteada do cartunista, que chegava da faculdade, por volta da 0h de anteontem. Além de esclarecer a motivação de Cadu e quem o acompanhava naquela noite, a prisão do jovem é considerada importante pela polícia para saber quem forneceu a arma, já que nem o pai e o avô disseram ter conhecimento.
A polícia só deve retomar os depoimentos amanhã. Em princípio, vão esperar o luto da família para poder ouvir mais gente e esclarecer mais detalhes da dinâmica do crime. Até agora, de testemunha ocular, foi ouvida apenas enteada rendida por Cadu - a família pediu para que o nome dela não fosse divulgado. Também foram ouvidos um parente da mulher de Glauco e um vizinho que também faz parte da igreja Céu de Maria, mantida na propriedade onde o cartunista vivia.
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Enterrados com aplausos
São Paulo - O cartunista Glauco e seu filho Raoni, assassinados na madrugada de sexta-feira, foram enterrados às 10h30 de ontem no Cemitério Parque Gethsêmani Anhanguera, em Osasco, Grande São Paulo. Participaram da cerimônia cerca de 300 pessoas - na maioria, familiares, amigos e seguidores da Igreja Céu de Maria, ligada ao Santo Daime, fundada pelo artista.
Em caixões fechados, os corpos de Glauco e Raoni chegaram ao cemitério às 9h30. Já eram aguardados por dezenas de pessoas, algumas, dentro do cemitério, gritavam “assassino! facínora!”, em referência ao estudante Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, 24 anos, considerado pela polícia o principal suspeito do crime. Ele estava foragido até o início da tarde de ontem.
A viúva de Glauco, Beatriz Galvão, conhecida como Madrinha Bia na igreja que liderava ao lado do marido, estava inconsolável e abatida, apesar de confortada por amigos. Houve comoção durante a cerimônia, o caixão do cartunista da Folha ficou coberto com um bandeira do Corinthians, e posteriormente com outra do Santo Daime, que contém uma cruz e uma estrela de seis pontas. O caixão de Raoni levava uma bandeira do São Paulo. Dentro dos caixões, o cartunista e seu filho estavam vestidos com as fardas brancas do Santo Daime, o traje de gala da religião.
Durante uma hora, a cerimônia foi conduzida por religiosos da Céu de Maria, trajados com camisas brancas - os homens, em grande parte, com calças também brancas com listras laterais verdes; as mulheres, de saias com detalhes em verde.
Familiares e amigos das vítimas, mortas em frente à casa onde moravam na comunidade religiosa daimista Céu de Maria, fundada por Glauco nos anos 90, passaram a noite velando os corpos e cantando hinos do Mestre Irineu, uma espécie de apóstolo da religião, além de outros de autoria do próprio cartunista.
Ninguém dormiu. Foram 116 cantos, entoados desde a noite de sexta-feira até o começo da manhã de ontem, sempre entremeados por três pais nossos e três avemarias. “Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome, vamos nós ao vosso reino...”, recitaram, diferentemente dos católicos.
Muitos cartunistas compareceram à cerimônia. “Existem algumas pessoas que são muito especiais. E Glauco era uma delas. Um iluminado, principalmente pelo trabalho que desenvolveu e fez com que o público passasse a ter outra visão do cartum. Foi responsável por uma reviravolta do humor brasileiro”, disse o cartunista Orlando. “É um cara que ia ser um velhinho muito divertido, sem dúvida.”
“É como John Lennon. Glauco era um gênio que cruzou com um doido e aconteceu isso”, declarou o cartunista Spacca, comparando Glauco com o ex-beatle que foi assassinado em 8 de dezembro de 1980 quando retornava de um estúdio de gravação em Nova York (EUA). “Mas o importante é que ele era uma pessoa sempre disposta a ajudar os outros”, disse. Caco Galhardo, outro cartunista que estava presente, visivelmente emocionado não quis falar sobre o amigo.
Entre as dezenas de coroas de flores estavam homenagens de outros cartunistas, como Maurício de Sousa, e dos profissionais do jornal Folha de S. Paulo, que publicava as tirinhas de Glauco. Representando o jornal, compareceu ao enterro o editor executivo da Folha, Sérgio Dávila.