Cultura

Arte engajada

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 3 min

Crítico e engajado, é com lápis em punho que o chargista Carlos Latuff luta por aquilo que acredita. Autor de desenhos conhecidos mundialmente, que retratam desde questões da Palestina à violência policial no Rio de Janeiro - sua cidade natal -, Latuff faz da militância política a essência do seu trabalho.

Aos 41 anos, metade deles dedicados a essa arte, o chargista diz que seu objetivo é trazer a atenção das pessoas de volta à realidade.

“Muitos cartunistas estão preocupados em serem engraçados, mas temos cada vez menos motivos para sorrir. Eu penso diferente. É preciso ter imagens, ideias e conceitos que rasguem esse véu da ignorância em que vivemos. Quando eu desenho, estou tentando fazer com que a charge rompa com esse círculo vicioso, que ela cause algum tipo de ruído”, defende Latuff, que esteve ontem em Bauru para participar do seminário “Perspectivas Para a América Latina no Século XXI”.

Sem devaneios, o artista não afirma que seu trabalho pode ser, de fato, um agente transformador. Segundo Latuff, o que ele espera é que, de alguma forma, as charges façam as pessoas despertarem.

“É algo que eu tenho que fazer. Eu não posso deixar passar batido, cruzar os braços e deixar rolar. Sei que um simples desenho não vai mudar o mundo, a sociedade. É a mobilização popular que pode fazer isso. Eu sou só um cara que faz desenhos, não trago para mim nenhuma responsabilidade revolucionária. Mas espero que esses trabalhos de alguma maneira consigam tocar as pessoas”, comenta.

Confrontado à questão “um outro mundo é possível” - tema da palestra ministrada por Lattuf, em Bauru - o chargista se revela mais cético.

“Um outro mundo é possível, mas não vai vir. Não é questão de ser pessimista. Por exemplo, a Cop 15 (conferência da ONU sobre mudanças climáticas) deu no que? Nada. Ninguém quer abrir mão de lucro. Nosso sistema só faz produzir e consumir. Se formos por esse caminho, a natureza vai quebrar e já estamos vendo os sinais”, finaliza.

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Caminhada

Tema de muitos de seus desenhos, o movimento Zapatista, no México, foi decisivo na trajetória de Latuff. Foi após assistir um documentário sobre os zapatistas, em 1996, que o artista levantou a militância política como bandeira.

“Meu desenho sempre teve um viés crítico. Mas eu trabalhava para quem me pagasse. Existe um conceito de que conseguimos ter convicções políticas e pessoais, mas trabalhar para quem nos paga. Mas descobri que não dá para fazer as duas coisas. E esse vídeo foi o responsável por dar um start (início) nesse processo que eu já alimentava”, explica sobre o início da sua produção.

“Já perdi as contas das charges. Eu nem guardo os originais, dou para a Biblioteca Nacional e para o arquivo nacional.” Apesar de ter iniciado sua carreira como ilustrador numa agência no Rio, em 1989, Latuff tornou-se cartunista ao publicar a primeira charge em jornal sindical, um ano depois, área na qual trabalha até hoje.

Outra paixão do cartunista são as ferrovias, tema para o qual dedica um blog (ferrovias dobrasil.blogspot.com). Lá, os visitantes encontram fotos, desenhos e depoimentos sobre os trilhos pelos quais Latuff passou, inclusive os de Bauru. “Eu gosto de ferrovia e os registros que eu faço, seja fotografando ou desenhando, recuperando fotos, é uma maneira de contribuir com a memória ferroviária.”

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