Qualquer eleitor sabe o que significa “campanha eleitoral antecipada”. O pré-candidato é aquele que, todos sabem, vai se lançar oficialmente, mas quer fazer o seu marketing pessoal e firmar posição antes dos adversários. Se o candidato está no poder, ou com o poder, melhor ainda porque os comícios inaugurais são feitos às custas do erário. Essa esperteza é proibida por lei, justamente por subverter o jogo democrático e causar prejuízos aos cofres públicos pelo chamado “uso da máquina”. Na pior das hipóteses a sanção dos tribunais eleitorais limita-se a uma multa de R$ 5 mil. Na melhor delas, nada acontece. Ninguém pode impedir o Lula de fazer “inspeções de obras” ou de comparecer a “inaugurações” ao lado da sua ministra da Casa Civil Dilma Rousseff. O governador José Serra, que não é bobo nem nada, veio a Bauru para inaugurações ao lado de Geraldo Alckmin, secretário do Desenvolvimento e pré-candidato à sucessão no estado.
Louvado por correligionários e não tendo o seu nome citado diretamente como candidato ao pleito vindouro, o “pré” desfruta de toda a impunidade que o cargo pode conceder. O próprio TSE tem se encarregado de dar voltas à lei, indiferente ao uso da máquina, ou seja, do nosso dinheiro. Na inauguração de um complexo esportivo no ano passado Lula partiu para o deboche. O presidente disse que não poderia repetir o nome gritado pela claque para não ser processado nos termos da lei eleitoral. Lula jogou a responsabilidade para o Chefão: “a voz do povo é a voz de Deus”. Enquanto isso os correligionários de aluguel – R$ 40 de cachê, mais marmitex e transporte – berravam sem parar “Brasil, urgente, Dilma presidente”. Serra, aonde vai tem que enfrentar o coro dos insatisfeitos professores da rede pública ou das vítimas das enchentes. Triste sina.
Pagar R$ 5 mil de multa por um comício é muito barato. Transporte de avião, logística, hospedagem, alimentação, divulgação, cobertura pela televisão, jornais e emissoras de rádio, lanche para todos da platéia. Tudo às custas da viúva. A Justiça Eleitoral é cega, surda e tropeça nas estrelas distraída projetadas por governantes populistas. A leitora Cristina Azevedo fez uma crítica jocosa ao TSE, mas muito procedente: “mesmo se um pré-candidato – uma jabuticaba eleitoral tipicamente brasileira – disser ‘votem em mim’. Não será multado, porque, afinal de contas ‘mim’ não é nome de candidato, e então não está configurada a campanha”.
Mais de 130 milhões de brasileiros irão às urnas para eleger o 36º presidente do Brasil. O candidato eleito poderá ser uma mulher, pela primeira vez na história deste país, graças ao carisma e popularidade impressionantes de Lula. Nada contra. O país perde na medida em que se enfraquece o debate de idéias desenvolvimentistas e de políticas públicas mais avançadas. Corremos o risco da disputa pelo mais importante ao cair na pobreza do Nós X Eles, como num jogo de futebol. Aturdido e temente de fazer oposição a um presidente tão popular, o PSDB navega sem qualquer bússola. Serra, ao admitir a sua candidatura explícita, pela primeira vez, argumentou que o governo de Lula foi bom. Na sua opinião, o que o eleitor deve distinguir é quem poderá fazer melhor daqui para frente. É um argumento fraquinho para quem está há anos em primeiríssimo lugar nas pesquisas de opinião pública. Há quatro anos foi atropelado pelo ex-governador Geraldo Alckmin que lhe surrupiou a vez. Desta vez teve que se expor às vaidades de Aécio Neves. Mineiramente ele saiu da disputa para permanecer em campo. O ex-presidente FHC pensa mais na defesa do seu passado e Serra ainda tem que lidar com um PSDB que pouco ajuda e muito atrapalha. O governador de São Paulo fez 68 anos no Dia de São José. Esta é a última chance. Aos 80 será quase impossível. Arredio a uma boa briga o tucano fica na água-de-rosas que só favorece os adversários. Enquanto isso, Lula navega em cruzeiro, sem turbulência. Impossibilitado de um terceiro mandato resolveu mostrar prestígio. Ao arrepio do próprio PT enfraquecido por sucessivos escândalos, escolheu como candidata uma mulher. Sem carisma e com a saúde abalada. Se ganhar os méritos serão dele. Se perder, no máximo será mais uma discussão estatística sobre os limites da transferência de popularidade e prestígio. O voto não obedece a roteiros. Embora os marqueteiros de sempre insistam em afirmar o contrário, até hoje ninguém conseguiu manipular a capacidade do eleitor de decidir a resposta das urnas.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC