Bairros

A vida em um lugar de passagens

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

Alheios a embarques e desembarques, e convivendo diariamente com uma multidão de gente que chega e parte todos os dias, os comerciantes e prestadores de serviço que trabalham no Terminal Rodoviário de Bauru fazem do local, que tem como principal característica a rotatividade de pessoas, uma verdadeira moradia.

Um exemplo é a balconista Neide Costa, 60 anos, que já passou metade dos anos de sua vida trabalhando em uma lanchonete do local. Ela passa oito horas, das 24 horas que um dia tem, atendendo pessoas que dificilmente encontrará pela segunda vez.

“Moro na Vila Alto Paraíso, mas de tanto tempo que trabalho aqui já me sinto em casa. É como se você recebesse visitas todos os dias. Atendo tanta gente que raramente me lembro das pessoas, mas muitas delas me reconhecem e me cumprimentam quando me encontram na rua, ou, quando voltam à Rodoviária, fazem questão de ser atendidas por mim”, afirma.

A mesma experiência está começando a ser vivida por Daniela Peliser, 31 anos, balconista de uma outra lanchonete do local. Ela trabalha no lugar há apenas sete meses, mas já descobriu que pode aprender muito com seus clientes.

“Já percebi que a rodoviária é um lugar de encontro de culturas e que posso tirar muito proveito disso. Fico muito curiosa com relação a alguns clientes, especialmente quanto percebo que vieram de muito longe. Daí eu sempre dou um jeito de conversar, perguntar um pouco da vida de cada um. O dia de trabalho aqui é sempre diferente”, analisa.

Assim como Neide e Daniela, o comerciante Marcos Roberto Sanches, 38 anos, proprietário de uma banca de jornais e revistas, também se apaixonou pela rotina do local. Antes de comprar a banca ele era funcionário de uma empresa de transportes rodoviários. “Como o serviço era terceirizado e eu ganhava por comissão, tinha dia que eu ficava aqui 13 horas do meu dia. Agora que sou proprietário, esta jornada aumentou. Fico mais tempo aqui do que em casa”, afirma ele, que trabalha diariamente das 6h às 20h, com uma breve pausa para o almoço, que faz lá mesmo.

A exemplo dele, sua mulher e sua filha também passam boa parte do dia no terminal. A esposa porque trabalha na banca no período da tarde, e a filha porque encara o local como um parque de diversões.

Para Marcos, a diversidade de público já não surpreende mais, e passou a ter um significado diferente: o de risco. “Tem muita gente que vem aqui apenas para jogar conversa fora. Mas é preciso ficar esperto, porque em oito meses que abri a banca já sofri várias tentativas de assalto e em uma delas uma funcionária foi rendida e sofreu ameaça a mão armada”, alerta.

Emdurb também funciona no prédio

Além dos comerciantes e prestadores de serviço que frequentam diariamente o Terminal Rodoviário de Bauru, os funcionários da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru também ocupam o prédio.

Eles são quase invisíveis aos olhos de quem apressadamente passa pelo local, mas, na prática, ocupam cerca de 20% da área total construída do terminal.

Debaixo da plataforma de desembarque está um dos ‘esconderijos’ onde funcionam sete dos 15 departamentos da empresa. Para quem nunca reparou, o lugar se mostra um mundo novo, como que surgido instantaneamente em um passe de mágica.

É um corredor repleto de salas, todas com poucos metros quadrados, tetos baixos, separadas por divisórias e abarrotadas de arquivos.

A outra parte dos departamentos, onde trabalham os funcionários da Emdurb, fica no piso superior do prédio, onde antigamente funcionavam estabelecimentos comerciais e que atualmente está passando por reforma. Já o setor de multas funciona, quase que imperceptível, em um sanitário desativado no piso principal do terminal.

E se engana quem pensa que a movimentação no Terminal Rodoviário acaba na plataforma de embarque de passageiros. A alguns metros dali funciona o refeitório de funcionários, local onde estas figuras ‘invisíveis’ têm o seu tempo de descanso.

____________________

Falta de segurança é a principal reclamação

Quem vê o taxista Armando Garcia, 66 anos, e o colega Donizeti Paixão, 54 anos, conversando tranquilamente debaixo da sombra das árvores da praça João Paulo II, em frente ao Terminal Rodoviário de Bauru, não imagina a vida cansativa e arriscada que eles levam.

A dupla, que não é proprietária do ponto e dos táxis, trabalha em escala de 24 horas de serviço por 24 horas de descanso, e revezam o comando dos carros com outros dois companheiros que os substituem nos dias de folga.

No total, cerca de 24 veículos operam para atender o fluxo de clientes que frequentam a Rodoviária. Por dia, em média, são feitas dez corridas por taxista, 15 nas datas de maior movimento.

Para infelicidade de sua esposa, Armando trabalha no ponto há oito anos para complementar a renda que ganha como aposentado. Nesse período, já foi assaltado três vezes. Na última, ocorrida em novembro do ano passado, foi parar dentro do porta-malas do carro e liberado horas depois em um ponto deserto da rodovia Marechal Rondon.

“Se paga um preço muito alto para conviver com a riqueza cultural existente aqui. Com o tempo a gente adquire umas técnicas que permitem identificar quem está ou não mal intencionado, mas nem sempre funciona. A rodoviária tem apenas um vigia por turno e as câmeras que estão instaladas aqui identificam, mas não detêm os bandidos”, queixa-se Armando.

Já Donizeti trabalha há apenas oito meses como taxista, mas também está insatisfeito. Ele morou em Bauru há alguns anos e chegou a trabalhar em uma empresa de transporte coletivo da cidade. Depois, com a falência da instituição, se mudou para o Guarujá, ficou um tempo por lá, e voltou o ano passado para tentar novas oportunidades na Cidade sem Limites.

“Me arrependi, aqui não tem trabalho para homens da minha idade. Sou taxista porque preciso me sustentar, mas confesso que não gosto. A gente ganha pouco, cansa e se arrisca demais”, reclama.

Comentários

Comentários