Se os criadores de “Lost”, que termina em maio, tivessem pegado um avião da Oceanic Air e desaparecido em uma ilha do Pacífico, ainda assim os fãs saberiam que final haviam inventado para a trama mirabolante.
Seriam salvos pela bíblia. Esse é o nome do documento redigido pelas autores bem antes de “Lost” se tornar fenômeno mundial.
É um manual de instruções para roteiristas e produtores, com o conceito da história, descrição minuciosa dos personagens e cenários, além do provável desfecho para a trama principal. É vista também como uma garantia de investimento do canal por trazer previsão de gastos com a produção.
Bíblias não são novas nos EUA, mas a de “Lost” é um marco, pela complexidade da história de sobreviventes de um acidente aéreo em uma ilha misteriosa do Pacífico. Tem, na verdade, “uma dezena de bíblias”, segundo a produtora Jean Higgins. “Coloquei os arquivos no iPod dos supervisores de roteiro, para que chequem sempre que as dúvidas aparecem”, contou, no Havaí, onde “Lost” é filmada.
No Brasil, autores, especialmente na TV aberta, resistem à fórmula e chegam a acusá-la de “engessar a criatividade”. Mas um número cada vez maior de roteiristas está sendo obrigado a aderir por exigência de canais estrangeiros, que ampliam investimento em séries no país graças a incentivo fiscal.
“Nem sabia o que tinha de ser posto na bíblia. Mas ela ajuda a planejar o que você vai filmar e faz parte da regra na TV”, diz Karim Aïnouz, que deixou o cinema após “O Céu de Suely” para fazer “Alice” para a HBO.
Criador e produtor da série policial “9 MM”, que acaba de encerrar as filmagens de sua segunda temporada para a Fox, Roberto D’Avila diz que “a bíblia se tornou padrão no Brasil quando passamos a vender programas para outros países”. Editais de financiamento governamental para séries nacionais também passaram a exigir aos candidatos a entrega de bíblia, de olho na comercialização internacional das obras.
Michel Tikhomiroff, da produtora brasileira Mixer, de sucessos como “Mothern” (GNT), disse pôr “80% do esforço na bíblia e no primeiro episódio”. “Se algum profissional precisar sair ou entrar, não cai o nível. É uma memória, um GPS para qualquer projeto.”
Fiel ou agnóstico
Presidente da ARTV (associação brasileira dos roteiristas de TV) e autor da bem-sucedida série da Record “A Lei e o Crime”, Marcílio Moraes não se anima com a nova mania.
“Para mim, seria impossível trabalhar assim. Não sei se é bom, necessário. Leio sobre teorias de dramaturgia, mas acho que escrever é intuitivo. O brasileiro é mais de improvisar, não gosta das coisas rígidas.”
Não é o que pensa Cao Hamburger (“O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”), autor de “Filhos do Carnaval” (HBO). “Até para o ‘Castelo Rá-Tim-Bum’, há 20 anos, fiz bíblia. Não é nada engessador. Serve para organizar o projeto, mas evolui com o tempo. Sempre mudei o que estava escrito. Não sigo cegamente a bíblia, mantenho a sensibilidade aberta”, conta.
Mas “Castelo”, infantil de sucesso na Cultura, é uma exceção na TV aberta, na qual projetos são aprovados após análise de sinopse do autor. “No caso de ‘A Lei e o Crime’, nem sinopse apresentei. Contei minha ideia e aprovaram”, diz Moraes.
A diferença entre as emissoras abertas e as fechadas se reflete na produção da O2 de série. Paulo Morelli, sócio de Fernando Meirelles na produtora, conta que para “Filhos do Carnaval” a HBO deu um adiantamento para Cao fazer a bíblia.
Já “Cidade dos Homens”, dirigida por Morelli, e “Som & Fúria”, de Meirelles, ambas feitas para a Globo, não precisaram do “santo documento”. Principal autor de novelas da nova geração, João Emanuel Carneiro (“A Favorita”) escreve para agosto sua primeira série, “A Cura” (Globo), sobre um médico com poderes espíritas.
“Na Globo, bíblias não são usadas porque até hoje, em todas as séries, os episódios são independentes, se fecham em si próprios. ‘A Cura’ será a primeira a ter um arco dramático que atravessa a trama, uma sequência entre os capítulos. Por isso, minha sinopse passa perto da bíblia, mas não sigo todos os mandamentos de Moisés. É bom conhecer as regras até para contrariá-las”, acredita.
Fernando Bonassi e Marçal Aquino, que estreiam na próxima terça a segunda temporada de “Força-Tarefa”, na Globo, não veem necessidade de uma bíblia. Aquino diz que eles trabalham “com liberdade” e brinca: “Não nos prendemos a nada, só às características da série. Somos escritores ateus”.
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Os dez mandamentos das séries
1. Descreve tua história e detalha teus personagens em profundidade
2. Prova o fôlego para muitos episódios e temporadas
3. Adora a expressão “arco dramático’’, que apontará a evolução da tua narrativa
4. Não matarás o investidor de susto: lista cenários e elenco e planeja gastos da produção
5. Estabelece ao menos um final para tua história
6. Lembra-te de que série não é novela, muito mais aberta a mudanças de rumo
7. Não idolatrarás a tua bíblia; usa-a como teu guia, mas não te furtes a novas ideias
8. Não te recusarás a escrever uma bíblia, principalmente se estiveres trabalhando com um canal internacional
9. Usa a bíblia para seduzir o canal que cobiças
10. Desencana de tudo isso se estiveres trabalhando na TV aberta brasileira