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Sociedade e honra

Nilton de Oliveira Apolinário
| Tempo de leitura: 4 min

Interessante, senão instigante, é a prática de um exercício que se baseia em observar uma sociedade e tentar encontrar os valores que a regem. No Japão feudal, por exemplo, entre o século XII e XV existiu uma classe de guerreiros, os samurais, regidos pelo Bushido, uma espécie de código de conduta que, através de regras rígidas, impunha valores a serem seguidos por tais “soldados de honra”. O seu maior princípio era buscar a morte com dignidade, um samurai jamais poderia se entregar e deveria estar sempre preparado para a morte. Além disso, a honra do samurai, de seus antepassados e de seu senhor deveria ser preservada por ele. Justiça, moralidade, razão correta, coragem, bravura, honra, glória são mais alguns outros valores disciplinado no código de honra dos soldados feudais japoneses.

Deixando a sociedade oriental do século XII um pouco de lado e passando a analisar a sociedade ocidental do século XXI, quais valores conseguiríamos encontrar em plena vigência? Para nossa sociedade, esse exercício se torna um tanto mais difícil, e não pela variedade extensa de valores que se espera encontrar, mas sim pela superficialidade dos vigentes e pela falta de alguns básicos que atuariam como verdadeiros pilares axiológicos. A honra seria um belo exemplo deste último grupo, valor que pareceu exilar-se do nosso grupo social, aparecendo algumas vezes empregada com ironia, sarcasmos ou mero deboche.

Beccaria dá à palavra honra o sentido de “aprovação dos homens”, ou seja, a aprovação de nossas condutas perante os outros membros do nosso grupo. E por que ser aprovado pelos outros homens? Para o pensador, “é uma condição que grande número de homens considera indispensável à sua existência. (…) trata-se de um retorno instantâneo ao estado natural e de uma subtração momentânea da própria pessoa às leis que, naquele caso, são insuficientes para a defesa do cidadão”. Naturalmente que o nosso sistema jurídico não se demonstra competente em nos depositar uma sensação plena de segurança. Uma vez que muitas das leis, ou são legisladas em causas próprias, ou carecem de técnicas que nossos parlamentares não dispõem. Essa conclusão nos levaria a pensar então, pelo raciocínio do filósofo, que a honra também se faz necessária na vida do homem atual, porém a constatação tida na observação nos diz que acontece exatamente o contrário, não existe honra nos dias de hoje, e não porque deixamos de ter a necessidade da “aprovação dos homens”, e sim porque deixamos de ter a necessidade de aprová-los.

Um dos fatores mais expressivos que nos leva à ausência dessa necessidade é a individualização do ser, conseqüência do sistema capitalista de produção. Vivemos a era do ser individualista, que se preocupa apenas com a própria sobrevivência e com a manutenção desta com luxos e glamour. Esse egoísmo natural do ser contemporâneo inibe o ato de valorar o comportamento do próximo, de julgar sua aprovação naquele meio. De uma forma paralela vemos a valoração dos bens materiais alheios, de sua posição social e de seu poder aquisitivo, objetos que em nada se relacionam com a nossa honra abandonada.

Pode até parecer, ou mesmo ser, lugar comum falar sobre o ter em detrimento do ser, contudo é preciso enfatizar a tamanha dimensão do problema. Está-se perdendo valores importantíssimos para a vida em sociedade e não se percebe. Enfatizei a honra por ser um valor que julgo de primeira grandeza. Uma sociedade sem honra é uma sociedade hipócrita, vazia e sem diretrizes. Hipócrita porque não se importa com a aprovação de seus membros e ainda se julga aprovada por estes, vazia, pois não se preenche com críticas sociais que só tendem a evoluir a própria sociedade e sem diretrizes já que não avalia a atual situação social.

Assim, fica claro o grau da nocividade que há num grupo social em que determinados valores se fazem ausentes, principalmente quando esse valor é componente da formação do caráter do indivíduo. Pensar profundamente sobre essa questão é uma proposta plausível feita a todo cidadão que compartilhe da idéia de que a honra precisa voltar a ser um pilar mestre da nossa sociedade. Pois só assim que poderemos começar a falar sobre um outro valor de primeira grandeza, a Dignidade.

O autor, Nilton de Oliveira Apolinário, é graduando em Direito pelo Instituto de Ensino Superior de Bauru - IESB-Preve e membro do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais de Santa Maria - PRISMA

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