Macatuba - Mais de 4 mil pessoas participaram ontem da encenação da Paixão de Cristo em Macatuba (a 46 quilômetros de Bauru). Os últimos momentos de Jesus enquanto homem são relembrados há 40 anos na cidade e tornaram-se um importante acontecimento turístico e religioso do Estado de São Paulo.
A chuva que ameaçava o espetáculo deu uma trégua minutos antes de seu início, e a multidão antes tímida, de repente ganhou corpo e lotou a praça em frente à igreja de Santo Antônio para assistir a encenação, que começou por volta das 16h. Cerca de 140 atores amadores remontam em detalhes os últimos momentos da vida humana de Cristo. Não se trata, no entanto, de um teatro comum. A apresentação se reveste de um clima especial, que encanta desde crianças até os mais velhos.
A história é encenada por um grupo amador que começou a trabalhar em 1970 e, atualmente, atrai milhares de turistas. A direção do teatro é da macatubense Doralice Artioli, 68 anos, que não mede esforços para estar à frente da encenação que marca uma das mais importantes datas para o Cristianismo: a Sexta-feira Santa. A primeira apresentação da Paixão de Cristo de Macatuba teve o apoio do padre José Corsini. Mas foi três anos depois que a encenação ganhou espaço junto ao público de toda a região, que passou a procurar a cidade nas Sextas-feiras Santas a fim de assistir a apresentação. “Fui a primeira Maria”, relembra ela, que confecciona todas as roupas usadas em cena.
A Ressurreição de Cristo, alicerce fundamental da cristandade, passou a ser encenada a partir de 1990, na Praça Santo Antônio, em frente à Igreja Matriz. Para tornar a apresentação mais realista, as ruas da cidade recebem decoração semelhante à da época dos fatos. O teatro ao ar livre dura em média de duas a três horas e começa com a traição de Judas, a prisão de Cristo no Jardim das Oliveiras, o julgamento pelos sacerdotes Caifaz, Herodes e Pilatos, em frente à praça. “Os atores são todos frutos da terra”, orgulha-se Doralice.
O cortejo com a cavalaria segue pelas ruas da cidade. Durante o trajeto, ocorrem o encontro de Cristo com sua mãe, a ajuda do Cirineu, o encontro com Verônica e a chegada de Cristo e dos dois ladrões até o Calvário - local da crucificação, que acontece no morro do Clube Esportivo e Cultural da cidade. Lá também é encenado o arrependimento e o suicídio de Judas. Após as cenas da crucificação, são utilizados efeitos especiais no momento da morte de Jesus Cristo.
O torneiro mecânico Daniel Campos, 26 anos, que interpreta Jesus pelo segundo ano consecutivo, ontem estava apreensivo. “Estudei dez anos no seminário e o teatro também é uma forma de evangelização. É uma responsabilidade muito grande ser Jesus Cristo”, afirma. Já Vanessa da Silva Teixeira Narciso, 18 anos, fez sua estreia no espetáculo e ontem interpretou Maria, a mãe de Jesus. “É uma experiência maravilhosa. Fiquei muito feliz com o convite.”
Recompensa
Diante de tanto empenho, o evento atrai turistas de todo Estado de São Paulo. O agricultor Paulo Roberto Criscuolo, de 52 anos, sai de Jaú e vai para Macatuba há 25 anos para acompanhar a Paixão de Cristo. “Venho pela celebração e também pela encenação, que acho diferente. Na minha cidade não tem.”
Elaine Capioli, 34 anos, de Lençóis Paulista, conhecia a encenação da época em que era solteira. Mas este ano, fez questão de trazer seu marido Genésio e seus filhos Gustavo, 2 anos, e Giovani, 9 anos. “É importante que eles tenham esse momento de fé.” A aposentada Marina Fantine, 67 anos, conhece bem o percurso de três quilômetros da Paixão de Cristo. Desde que a encenação surgiu, a macatubense participa. “Não me canso. Isso aumenta a fé do povo.”