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Necromaquiagem atrai vaidosos

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

A preocupação com a estética, especificamente a aparência agradável, um rosto bonito e bem cuidado, não é uma exclusividade apenas dos seres vivos. Os mortos também querem ser enterrados em grande estilo, com um semblante alegre. Nada de rosto pálido e olheiras.

Enquanto existe quem pense que depois da morte não há que se preocupar com aparências e que o momento não é para isso – afinal, depois que for para debaixo da terra, nenhuma beleza mais haverá -, há também quem pensa justamente o contrário. “Não é porque estarei morta que vou descuidar da aparência”, avisa a auxiliar de cozinha Rita de Cássia Francisco, 36 anos.

Rita adora estar maquiada, mesmo durante a semana. E não admite ser velada com a cara limpa, com o semblante pálido. Por conta disso, ela já avisou os amigos e até seu maquiador preferido: nada de cara de morto. “Quero que minha aparência fique bem natural”, comenta.

Ela lembra que um fato ocorrido quando tinha 18 anos despertou para isso. Antes de morrer, uma vizinha da loja onde ela trabalhava havia pedido ao marido que queria ser maquiada depois de morta. “Eu nunca havia me dado conta disso. Achei que foi uma coisa bem legal”, recorda. Desde então, colocou na cabeça que também quer se despedir de seus parentes e amigos da mesma maneira como a conhecem no dia-a-dia, com a aparência sempre bem cuidada.

E Rita não é uma voz solitária. A exemplo dela, a cabeleireira e maquiadora Claudete Chaves Takao também quer uma despedida digna, esteticamente falando. “Já comentei com a minha filha: quando eu morrer quero uma maquiagem discreta para não ficar com o aspecto de pessoa morta. Quero algo mais alegre. Se possível, quero que passem até perfume”, conta.

Claudete lembra do episódio que aconteceu com ela cerca de cinco anos atrás. Ela estava no velório da irmã de uma amiga dela quando a amiga achou a irmã muito pálida. “Ela tirou um kit que carregava na bolsa e me entregou”, relata a maquiadora.

Depois de um batom rosa nos lábios, uma leve sombra nos olhos para disfarçar o roxo, um blush no rosto e uma ajeitada no cabelo, o aspecto mudou completamente. E tudo isso feito com o corpo já dentro do caixão. Segundo Claudete, ficou bem melhor.

Tendência

Embora ainda haja considerável resistência por parte de algumas famílias quanto à maquiagem, uma parcela da população, que inclui também a ala masculina, mostra que não está nem um pouco disposta a deixar uma má impressão no momento da despedida.

Essa disposição, na opinião do maquiador Rick Cabral, pode dar um impulso a esse mercado que não é tão novo, mas ainda enfrenta um forte tabu no Brasil. Muitos se recusam e acham até desrespeitoso mexer nos mortos. Em termos de lucratividade, maquiar um morto rende cerca de três vezes mais que maquiar um vivo.

Os produtos utilizados na maquiagem mortuária ou necromaquiagem são basicamente os mesmos de uma maquiagem comum. Só é preciso que a base tenha uma composição um pouco mais oleosa para compensar a pele seca e rígida do morto.

Outra diferença é que os produtos utilizados devem ser destinados só para aquele tipo de trabalho. Jamais pode ser usado em pessoas vivas, uma vez que a matéria morta carrega uma série de bactérias. Por isso, o uso de luvas e máscaras também é obrigatório.

A finalidade básica desse tipo de maquiagem é dar um aspecto mais próximo do natural, respeitando tanto o morto como a família deste. “O ideal é dar a impressão de que o morto está apenas dormindo”, frisa Rick, que é professor do curso de maquiagem do Senac de Bauru, onde ministra aulas sobre o assunto.

Ele mesmo já maquiou quatro pessoas depois de mortas. Todas em Belo Horizonte, onde morava. Segundo ele, o valor que se recebe pelo serviço é o grande atrativo. Ele varia de R$ 150,00 a R$ 500,00. Depende do tipo de produto que é usado.

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