Tribuna do Leitor

O velho do rio


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Li sobre o projeto do Executivo de Bauru em estender os interceptores ao longo do Rio Bauru a partir da quadra 18 da avenida Nuno de Assis. Desci pela negra artéria, a fim de localizar a mencionada quadra. Era um domingo à tarde. Tempo nublado. Avenida deserta. Cheguei à margem do rio e passei a observar algo que não via já fazia muito tempo. As águas começaram a fermentar como a pororoca do Amazonas. Lentamente as águas açoitadas pelos detritos humanos passaram a tomar forma. Era o Velho do Rio que ressurgia após longo tempo. Sua silhueta foi se formando pouco a pouco. Era um mendigo esfarrapado. Cabelos longos e embaraçados, confundindo-se com a longa barba. Era o Velho do Rio açoitado pelas sujidades lançadas em seu leito enfermo. Falou-me:

- Meu caro, há muito tempo que não me materializava na forma dos que chicoteiam a limpidez de minhas águas que um dia deu de beber aos fundadores da cidade - interrompi: - Meu velho, hoje temos um prefeito ambientalista. Jovem sensível e consciente que há de sanear seu leito açoitado!

- Então, por que não colocar os interceptadores na extenção em que mais me açoitam?! Respondi-lhe:

- Nisso concordo, pois dizem que já existem interceptores até a rua Alto Purus. Era somente dar continuidade e tornar a cidade com melhores ares. Sabe-se que a estação de tratamento exige muitos gastos, mas pode-se melhorar as condições de saúde dos que residem há décadas ao longo do rio. Cheguei aos setenta anos e já estou perdendo as esperanças de pescar lambaris no leito saneado do rio comunitário.

O Velho do Rio sorriu tristemente e límpidas lágrimas rolaram em suas faces esbofeteadas pelo descaso. Aos poucos foi se diluindo, mas deu para observar uma camisinha de vênus (usada) enroscada em seus cabelos embaraçados...

Joaquim Simões - membro da ABLetras

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